A Revista Íntegra, após cinco anos de publicações, chega ao fim.
Convidamos você a conferir esta última edição. Saiba mais...
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quinta-feira, 8 de março de 2012

Xenofobia


De acordo com o dicionário, xenofobia consiste na aversão ao estrangeiro: xeno – estranho; fobia - aversão, medo.

O século XX foi palco de inúmeros e profundos acontecimentos como: duas Guerras Mundiais, Guerra Fria, várias guerras civis, além do advento da globalização, revolução técnico-científica e a formação de blocos econômicos como União Europeia e o Mercosul.
Todos esses acontecimentos contribuíram e ainda contribuem para o aumento de fluxos migratórios dentro dos países e além de suas fronteiras. Em consequência desses fluxos, manifestações xenofóbicas têm se difundido cada vez mais entre pessoas e alguns países têm criado leis para inibir ou limitar a presença de estranhos em seu território.
Como sempre fui ligada aos Direitos Humanos e acredito que todos devemos respeitar e ser respeitados, sou contra toda e qualquer forma de preconceito, e nesse artigo gostaria de compartilhar um pouco da minha experiência evidenciando ainda mais o porque sou contra a esse tipo de atitude.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

This is the end!

Caras e caros leitores da Íntegra

É o fim!
O governo do odiado Berluscone caiu e junto com o palhacinho saíram também as velinhas ministras, espécie de chacretes amigas de Berluscone que entraram para a política. Você consegue imaginar isso? A Rita Cadillac ministra da educação ou cultura ou esporte ou casa civil. A Fulana Furacão da economia e o Chacrinha como presidente do partido jogando bacalhau e dando troféu abacaxi para o parlamento?
Aqui essa triste imagem foi possível no governo do engraçadinho; um cruzamento de Paulo Maluf com Silvio Santos.
Os estragos foram grandes. Vai demorar até uma reestruturação e neste meio tempo, ou um tempo quase inteiro, pagaremos muitos impostos para a economia do país se recuperar.
Ontem vi nos telejornais os novos ministros do governo técnico, ainda não entendi muito bem como funciona isso mas parece que tudo sera técnico. Todo mundo é bem velhinho como a Europa, as mulheres são mulheres de 50/60 anos com rugas que mostram todos os anos de muito estudo e trabalho eficiente.
Estamos confiantes nesse novo modelo de país, uma Itália com gente fina, elegante e (sincera)séria! Um governo de gente que pensa, faz e trabalha, uma Itália "germânica". E isto será também engraçado. É cômico ainda se sentir meio público de circo acreditando numa velha utopia, na construção de um novo lugar. Acreditar que não falaremos grego, que seremos entendidos e entenderemos, e não teremos o mesmo destino daquele país, onde ir ás ruas já não faz mais efeito, logo lá no berço da civilização.
E num futuro não muito próximo, quando a Itália voltar a ser um pequeno grande país, iremos rir das histórias de bunga-bunga do ex premier e até diremos com uma bela gargalhada: era um barato o parlamento do Silvinho...

Um caro saluto,
Luci Macedo - Milão, Itália

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Parte do discurso de Slavoj Žižek do movimento Occupy Wall Street

Em uma velha piada da antiga República Democrática Alemã, um trabalhador alemão consegue um emprego na Sibéria; sabendo que todas as suas correspondências seriam lidas pelos censores, ele diz para os amigos: “Vamos combinar um código: se vocês receberem uma carta minha escrita com tinta azul, ela é verdadeira; se a tinta for vermelha, é falsa”. Depois de um mês, os amigos receberam a primeira carta, escrita em azul: “Tudo é uma maravilha por aqui: os estoques estão cheios, a comida é abundante, os apartamentos são amplos e aquecidos, os cinemas exibem filmes ocidentais, há mulheres lindas prontas para um romance – a única coisa que não temos é tinta vermelha.” E essa situação, não é a mesma que vivemos até hoje? Temos toda a liberdade que desejamos – a única coisa que falta é a “tinta vermelha”: nós nos “sentimos livres” porque somos desprovidos da linguagem para articular nossa falta de liberdade. O que a falta de tinta vermelha significa é que, hoje, todos os principais termos que usamos para designar o conflito atual – “guerra ao terror”, “democracia e liberdade”, “direitos humanos” etc. etc. – são termos FALSOS que mistificam nossa percepção da situação em vez de permitir que pensemos nela. Você, que está aqui presente, está dando a todos nós tinta vermelha.


Para ler o belo e idealista discurso, entre no blog da Boitempo editorial

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

O que é mesmo Liberdade de Expressão?

Nas décadas de 70 e 80, a Boca Maldita - reduto de intelectuais de Curitiba - era o local de discussão onde tudo era permitido. Mas os temas eram política, literatura, cidadania... Era a tribuna livre de palavras e pensamentos. Hoje a dita "liberdade de expressão" se propagou em forma de redes sociais. Podemos dizer o que fazemos, quem somos e o que pensamos.
E esta é a pior parte, pois revela a miséria humana, exatamente porque na maioria das vezes não há um conteúdo relevante para propagar, e ainda assim, na tentativa de ser engraçadões, expõem a banalização desta geração.
E por que dizer, se expor? Que liberdade de expressão é esta? É a liberdade que causa discussão, que gera novas leis, indignação, admiração e seguidores. E qual é a conclusão? Existe um veredicto? Censura? Amoralidade?
No fim, só querem ser polêmicos ou politicamente incorretos. A completa liberdade de expressão está aprisionanando à nossa naturalidade, à nossa escolha de contar uma piada apenas para fazer bom humor e nao para virar notícia.

Luci Macedo, Milão - Itália

domingo, 8 de maio de 2011

Diga não à Belo Monte!!!

Uma aula:



Depois o Coletivo Miséria de Sampa:



Depois o popular:




quarta-feira, 30 de março de 2011

Os pais suíços não sabem explicar aos filhos o que é Usina Nuclear

Saiu na TV suíça: os pais não sabem explicar aos filhos a catástrofe ocorrida no japão, as crianças perguntam, o que é Usina Nuclear? e ficam sem resposta, chegam até mesmo a perguntar o que é uma catástrofe? e os pais se enrubrecem sem jeito e não sabem nem mesmo o tom que devem usar para não assustarem as almas inocentes. Então, eu vou dar uma mãozinha:

- Alô Filhão! De onde é que você acha que vem a luz que você apaga e acende centenas de vezes ao dia? De onde vem toda a eletricidade que liga o seu aparelho de som, computador, video game e bugigangas eletrônicas?...da Usina Nuclear que produz energia elétrica. Quer que o papai leve você pra conhecer uma Usina Nuclear de perto? Vamos à Mühleberg, ou podemos visitar todos os cinco reatores nucleares existentes na Suíça. Cinco reatores que geram apenas cerca de 40% da eletricidade do país. Pois é. Com isso eu teria a chance de entrar no assunto das energias renováveis e começar a fazer a cabeça da criança pra pensar em soluções mais ecológicas pro nosso tão castigado planeta. Mas a maioria dos pais suíços não querem mudança nenhuma, a Usina Nuclear europeia é o máximo! E sem Usina Nuclear quem vai entreter meu filho, se a TV estiver desligada?

Marcelo Candido Madeira - Biel, Suíça

domingo, 20 de junho de 2010

Se a eleição fosse hoje...

...em qual seleção você votava? Argentina? Espanha? Costa do Marfim? Você tirava o Lula, botava o Adriano e recuava o Robinho?

Imagine o seguinte: por uma dessas coincidências a final da Copa do Mundo vai cair na mesma hora da eleição. Pra piorar, o Tribunal Eleitoral e a Globo não chegaram num acordo, então você tem que escolher: ou vota ou vê a final. E o Brasil tá na final, é claro! Você prefere um presidente eleito ou uma seleção campeã? Qual dos dois vai mudar o país? Uma seleção campeã serve pra gente comemorar no maior porre e pra centenas de contratos milionários (nenhum conosco, também é claro!) E um presidente, serve pra que?
Eu, você, todo mundo joga uns dois reais por semana na mega-sena. Mas quanto a gente investiria num presidente? Se a gente fizer uma vaquinha, dá pra comprar um? Ou pra isso tem que ser vaquinha de latifundiário com banqueiro e empresário? E um presidente se vende? É no cheque, no cartão ou em dinheiro? Tem que ser à vista ou rola um crediário?
Se a eleição fosse hoje, você votava na Dilma, no Serra ou no Dunga? E se a eleição fosse pra técnico da seleção e o Ricardo Teixeira sozinho escolhesse o presidente? O Brasil melhorava no campo? E na cidade? Afinal, uma eleição serve pra quê? E um presidente, serve a quem?
Mas... e se a eleição não fosse hoje? Isso! Nem a eleição nem a final da Copa. Se hoje fosse por exemplo o Dia Universal do Líquido Amniótico ou da Proclamação da Escravidão? Ou fosse, digamos, o Dia Mundial da Giárdia ou do Assassinato por Motivo Torpe? Ou pior ainda: se hoje fosse hoje? Só hoje, hoje e mais nada? O que você faria?

Nunca é o dia certo, não é mesmo?

César Cardoso para revista Caros Amigos - Edição de junho/2010

E para ilustrar este texto tão pertinente, posto um vídeo feito por mim em parceria com a Magda Hammer, aqui em Zurique, na Copa de 2006.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Participe desta bela discussão: "Precisa-se de Matéria Prima para construir um País!"

A crença geral anterior era que Collor não servia, bem como Itamar e Fernando Henrique. Agora dizemos que Lula não serve. E o que vier depois de Lula também não servirá para nada. O problema está em nós. Nós como POVO. Nós como matéria prima de um país. Porque pertenço a um país onde a "ESPERTEZA" é a moeda que sempre é valorizada, tanto ou mais do que o dólar. Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família, baseada em valores e respeito aos demais... João Ubaldo
De verdade há uma tendência em rejeitar qualquer presidente que esteja no poder. E isto não é de hoje, isto é histórico. Há quem diga que a maior vantagem do homem é poder mudar de opinião, e isto fazemos com uma rapidez sem igual. E há também quem considere tais mudanças, uma transformação cultural inevitável. É a negação do Brasil! Trabalho este que vem se solidificando a cada século. Thaís Aguiar
Querem desmerecer o Brasil. Cresci ouvindo que o povo brasileiro é mal educado ou iletrado. Parece que o Brasil está tão preocupado em responsabilizá-lo pelas mazelas do país que esquecem de procurar a verdadeira razão Histórica do porquê somos o que somos. O Brasil tem mais anos escravagistas do que republicanos. E quem fundou a república brasileira foram os senhores de engenho contra o poderio dos monarcas. Não foi Tiradentes não. O Brasil tem uma história colonialista, mentalidade colonizadora até quando defende as privatizações a preço de banana e as intervenções do FMI, ou na mentalidade escravagista que divide o país em luta de classes. E sem falar do notório tolhimento de qualquer oportunidade digna aos mais pobres e pretos. Marcelo Madeira


sábado, 27 de março de 2010

Cruzes, minaretes e montanhas - Magda Hammer

Suíça, março de 2010.
Em outubro do ano passado, um grupo de alpinistas surpreendeu-se ao chegar no topo da montanha Vanil Noir e deparar-se com uma enorme cruz tombada no chão.
Em fevereiro desse ano, mais uma cruz nas mesmas circunstâncias foi encontrada em uma outra montanha, em Les Merlas.
Grande detalhe: as cruzes haviam sido serradas.
A polícia, com a pulga atrás da orelha, abriu uma investigação. Quem seria o maluco que carregaria uma serra até o topo da montanha para cortar uma cruz? E para que tal esforço?
Na última segunda-feira, um guia alpinista foi preso e confessou o „crime“. Disse que serrou as cruzes por motivos espirituais. Com seu ato ele queria mostrar sua incompreensão pelo fato da igreja colocar símbolos religiosos no pico de montanhas. Para ele uma montanha é um lugar neutro e livre que pode e deve ser contemplado por todos, independente de sua religião ou crença.
Gostei da reflexão do rapaz. Qualquer semelhança com a iniciativa à probição das minaretas é mera coincidência. Ou não?
Magda Hammer- Zurique, Suíça

sábado, 19 de dezembro de 2009

Vergonha alheia - Lis Aguiar

Impressionante! Educação e gentileza nos dias de hoje são vistas como prêmios e são comemoradas como atitudes inéditas. Após algum tempo morando fora, me deparei com várias coisas que antes faziam parte da minha rotina. Como ligar a TV e ouvir o noticiário: “em 24 horas foram registrados 23 assassinatos na Bahia”, em seguida: “após a selvageria e as atrocidades cometidas pela torcida ensandecida do time Coritiba – coxa, atacando e agredindo as pessoas após perder o campeonato, uma mulher que passava num ônibus foi atingida por uma bomba lançada pela torcida e perdeu três dedos”, e ainda: “políticos flagrados recebendo propina e colocando o dinheiro nas meias, calças, onde for...” Tentei desligar a TV, pensando se poderia com mais, porém para finalizar a edição do jornal, ouvi “flagrante de gentileza – dois pedreiros ajudam uma cadeirante a sair de uma calçada sem rampa!”. Flagrante de gentileza?

Meu Deus, em meio a tantas atrocidades e notícias indigestas, quer dizer que uma pessoa ajudar a empurrar uma cadeira de rodas por alguns minutos é um ato que merece uma notícia na TV? Onde estão os valores, a consciência e o dever das pessoas? Isto deveria ser uma obrigação para com o próximo, um dever, e não um favor transformado em uma manchete.

Absurdos a parte, não é novidade nenhuma que nosso país está sendo engolido cada vez mais por uma violência que só cresce, por atitudes cada vez mais mesquinhas, onde as pessoas estão mais e mais fechadas em seus mundinhos particulares. Ainda que tenhamos os voluntários, as ONGs preocupadas em fazer algo melhor, mas principalmente as pessoas que pensam em fazer um pouquinho, ainda que isto seja agir com educação e solidariedade.

Então, quando repentinamente surgir uma vontade de fazer algo bom, por menor que seja, fará a diferença. Não deixe esse momento passar, simplesmente faça. Indispensável dizer o que isso também fará por você.
Lis Aguiar - Curitiba, Brasil

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O mal-entendido que mudou a história - 20 anos da queda do muro de Berlim!

O Muro de Berlim começou a ser derrubado na noite de 9 de Novembro de 1989 depois de 28 anos de existência. O evento é conhecido como a queda do muro. Antes da sua queda, houve grandes manifestações em que, entre outras coisas, se pedia a liberdade de viajar. Além disto, houve um enorme fluxo de refugiados ao Ocidente, pelas embaixadas da RFA, principalmente em Praga e Varsóvia, e pela fronteira recém-aberta entre a Hungria e a Áustria, perto do lago de Neusiedl.

O impulso decisivo para a queda do muro foi um mal-entendido entre o governo da RDA. Na tarde do dia 9 de Novembro houve uma conferência de imprensa, transmitida ao vivo na televisão alemã-oriental. Günter Schabowski, membro do Politbüro do SED, anunciou uma decisão do conselho dos ministros de abolir imediatamente e completamente as restrições de viagens ao Oeste. Esta decisão deveria ser publicada só no dia seguinte, para anteriormente informar todas as agências governamentais. Ainda assim as fronteiras não seriam abertas totalmente, somente seriam menos restritos mas o controle seguiria igual. Após uma hora de informações desinteressantes na coletiva de imprensa, Günter Schabowski é questionado por um jornalista italiano sobre as fronteiras e o controle, se seguiria tudo igual. Schabowski lembrou-se que tinha um papel em mãos -embora tenha demorado alguns segundos até encontrá-lo- que falava sobre isso. Ele, em posse do rascunho que acabara de ser redigido pelo conselho, começou a ler em voz alta sem nem mesmo saber exatamente do que se tratava. Jornalistas que estavam cochilando, acordaram com a surpresa, sem acreditar no que estavam ouvindo. Um outro repórter perguntou a partir de quando isto entraria em vigor. Schabowski procurou alguma data ou prazo no rascunho mas nada encontrou, e sua resposta foi - "Sofort" (imediatamente)!
A população que assistia ao vivo em suas casas foi para as fronteiras, mas nenhum soldado sabia do que se tratava. E foi assim que tudo aconteceu!

O muro de Berlim e o Portão de brandeburgo ao fundo em 9 de novembro de 1989. Pouco depois deste anúncio houve notícias sobre a abertura do Muro na rádio e televisão ocidental. Milhares de pessoas marcharam aos postos fronteiriços e pediram a abertura da fronteira. Nesta altura, nem as unidades militares, nem as unidades de controle de passaportes haviam sido instruídas. Por causa da força da multidão, e porque os guardas da fronteira não sabiam o que fazer, a fronteira abriu-se no posto de Bornholmer Strabe, às 23 h, mais tarde em outras partes do centro de Berlim, e na fronteira ocidental.

Muitas pessoas viram a abertura da fronteira na televisão e pouco depois marcharam à fronteira. Como muitas pessoas já dormiam quando a fronteira se abriu, na manhã do dia 10 de Novembro havia grandes multidões de pessoas querendo passar pela fronteira.

Os cidadãos da RDA foram recebidos com grande euforia em Berlim Ocidental. Muitas boates perto do Muro espontaneamente serviram cerveja gratuita, houve uma grande celebração na Rua Kurfürstendamm, e pessoas que nunca se tinham visto antes cumprimentavam-se. Cidadãos de Berlim Ocidental subiram o muro e passaram para as Portas de Brandenburgo, que até então não eram acessíveis aos ocidentais. O Bundestag interrompeu as discussões sobre o orçamento, e os deputados espontaneamente cantaram o hino nacional da Alemanha.
Fonte: Wikipedia e Revista Íntegra

King Kong de apostila e o mico acadêmico - Nei Schimada

Não sou ecológico como deveria ser, mas fico indignado diante de barbáries que acontecem em zoológicos com jaulas imundas e pequenas demais para a vida (sobrevida?) de alguns animais lá instalados. Elefantes que vivem em florestas indianas pra lá e pra cá, nômades, gordos e felizes, ganham um espaço menor que um campo de futebol. Claro que é para facilitar a quem pagou o ingresso para ir visitá-los.
Mas sou ecológico o suficiente para não jogar nada, nem cuspir chiclete pela janela do carro e para selecionar o lixo daqui de casa.
Lembro do filme “Medicine Man” (1992), com Sean Connery. Ele faz o papel de um cientista que se embrenha no meio da floresta amazônica e fez a descoberta do câncer. Qualquer câncer. O problema é que ele não consegue reproduzir em laboratório a química da tal flor que só cresce a trinta metros do solo no topo de uma específica árvore. Depois ele descobre que o importante mesmo não é a flor, mas o inseto que mora no interior dela. Então, chega um pecuarista e bota fogo em tudo. Correm ele, sua assistente e a tribo toda para o meio do imensamente tudo atrás de outra específica árvore, com a mesma flor e o tal insetinho cujo cocô freia as células mutantes do nosso corpo.

Fico pensando nos gorilas e orangotangos que morrem para perder apenas as mãos por serem iguarias caras no prato de gente muito, mas muito esquisita e com gosto duvidoso com uma travessa contendo uma mão de gorila e algumas batatas assadas ao redor. Molho madeira. Ou os tigres que morrem na China para que moam o pênis do felino para virar um pó mágico para outros pênis tristes e cabisbaixos que acreditam na milenar medicina chinesa de cobras, ervas, pedras, pênis e insetos em contrapartida à famosa pílula azul.
Pior mesmo é a situação dos bichos nas mãos dos cientistas. Até mesmo dos criadores da famosa pílula azul. Durante os experimentos, alguns macacos devem ter ficado eretos e excitados por horas e um cientista – pervertido – olhando para a jaula com um cronômetro na mão.

Há alguns dias, alguns desses símios com o cérebro na ponta do membro em estudo, escaparam e espalharam-se pelos corredores e salas de uma faculdade de um grande centro urbano e a mídia toda registrou.
Todos os discentes bugios em bandos resfolegaram, ganiram, correram, bateram as mãos no peito e gritaram diante da fêmea alfa que estava apenas mais fêmea que nos outros dias. Há o registro de um deles subindo pelas paredes.
Todo mundo sabe disso, assistiu, discutiu, opinou, riu.
Como é mais fácil lidar com a perda de uma e não de setecentas mensalidades, a tal faculdade do grande centro urbano resolveu expulsar a moça. Na contabilidade dos cifrões (evidentemente necessários) o pragmatismo impera sem titubeio. Mas na civilidade não.O exemplo dado pela tal instituição de ensino, cultura e educação ecoa e ecoara pelos corredores locais como os gritos bestiais de alguns exemplares dos podres primatas de uma elite machista masturbatória, individualista e infeliz.
Meu medo é que esse fato estudantil e essa atitude institucional tornem-se corriqueiros e recorrentes, por isso volto dias depois e falo tudo de novo, não por moralismo beato e cristão, mas por defesa da condição humana, pura e simples. Como se, em contrapartida, não bastassem as burcas afegãs ou as metralhadoras vendidas como picolés nas fronteiras do cone sul.
Não foi por receio de retaliações que não citei o nome da faculdade. Mas por nojo.

Também acho que deve ter um monte de gente bacana e bem intencionada por lá. Aproveitem, fim de ano, bom período para transferências.
Olha o currículo...

Nei Schimada, 43, punk, poeta e dekassegui, escreve de Hamamatsu shi - Japão. É blogueiro da Estrovenga dos Corsários Efêmeros

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Importante! Brasil 2020

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Um projeto interessante: Em Nápoles, turistas são orientados por ex-presidiários

A cidade de Nápoles, na Itália, lançou um projeto experimental chamado "Dentro-Fora", com a idéia de dar mais segurança e orientação aos turistas, que querem conhecer uma vizinhança não muito amigável.
O que o projeto traz de novo é que os guias turísticos são ex-presidiários. Eles prestam o serviço gratuito, onde gorjetas são desencorajadas pelo governo. Os novos guias adoraram a idéia e enxergam nesse tipo de trabalho uma alternativa para se reintegrar à sociedade e se afastar da tentação de voltar para o crime organizado. Numa reportagem, transmidida ontem pela SF1 (TV Suíça), um dos turistas é abordado e revela o desconhecimento do passado dos guias. Para o entrevistado a idéia é genial, e ele se sente, após saber disso, muito mais confiantes nos guias e nos trajetos que incluem os bairros mais perigosos da cidade.
Para os guias a felicidade está impressa em seus rostos e esperam que o projeto dê certo. Para eles reintegração precisa acontecer interiormente também e com isto a auto-confiança gera novos cidadãos!
Fonte: Revista Íntegra e Gerador de Conteúdo

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Carta aberta - Huei Lin Allegretti

(Carta recebida em 13 de agosto de 2009)
Olá queridos amigos e amigas

Passei as últimas horas tentando descobir algo sobre o mail que recebi sobre a manifestação "Fora Sarney"; entrei no Orkut, no Twitter, e cheguei a conclusão de que pode ser um movimento realmente feito pela população, e não um movimento de manipulação. No final das contas, como saber?

Nesse último final de semana, conversando com meus irmãos, recomecei a divagar sobre algumas coisas que há muito não pensava. Estou ficando mais velha, e com isso, mais acomodada. Mas fiquei incomodada com a minha/nossa comodidade. Durante a semana, conversando com uma aluna, esses pensamentos novamente voltaram à tona. Quantos e mails recebemos com acusações sérias sobre nossos governantes? Quantos escândalos não vêm à tona, volta e meia, na mídia? Quantos outros e mails não recebemos com "correntes" para que apaguemos as luzes num certo dia numa certa hora, dizendo que não devemos abastecer nossos carros em certo lugar, ou vários outros movimentos pacíficos que eu, pessoalmente (e infelizmente) quase sempre esqueço de fazer? (Vale a pena lembrar que em vários países mudanças sérias ocorrem devido a boicotes desse tipo). Mas aí pensamos que pode ser que não seja verdade, que pode ser somente uma jogada de marketing do concorrente, que não temos tempo para checar toda essa enxurrada de informações (informação=forma-a-ação. Será que vem daí?) que recebemos via internet! E continuamos nossas vidas, trabalhando, dando duro, reclamando ás vezes...

Conversava com meu irmão que, no Brasil, e em Curitiba certamente, temos a idéia de que passeatas são para pessoas de esquerda, de que não vemos os movimentos populares, como as passeatas, como uma ferramenta de cidadania, mas quase nos envergonhamos disso, de ir para as ruas, de mostrar a cara, de lutar pelos nossos direitos. Justificamos essa nossa falta de iniciativa com nosso passado de ditadura, com nossa característica de "bon vivants" dos brasileiros, pacíficos, que curtem a vida...Será que já não amadurecemos o bastante para termos voz própria? Infelizmente, nossa voz não é representada pelos nossos governantes, como deveria ser. Na grande maioria das vezes, nossos políticos não estão representando a nossa vontade, mas sim o interresse deles. Até quando vamos aceitar?
Deveríamos ter vergonha, não de andar na Rua XV demonstrando nossos desejos, de sermos melhores representados, de sermos respeitados ou de termos um retorno pelo que pagamos de impostos. Deveríamos ter vergonha é de sermos conscientes e não fazermos nada! De sermos coniventes! Eu acredito que quem tem consciência, é responsável. Somos todos responsáveis pela sem-vergonhice que acontece em nosso país. É nosso DEVER, não só direito, irmos para as ruas e demonstrar nosso descontamento. Não devemos ter vergonha. Temos que aprender a fazer isso, é verdade, mas digo a vocês que, quando você está lá fora, defendendo seus direitos e praticando cidanania, o sentimento é de orgulho e satisfação, de irmandade, de humanidade, de confraternização, de estarmos defendendo algo que sabemos ser justo e certo.

Daí recebi esse email sobre a manifestação (Fora Sarney!). Minha primeira reação é "sim, vou repassar a todos que conheço". Depois comecei a pensar em todas as implicações que isso pode ter, não sabia quem havia iniciado esse movimento, que tipo de reação terá a polícia ( no "perguntas e respostas" do Yahoo! fiquei sabendo que em Brasilia a polícia reagiu), etc, etc.
Continuo não podendo dar essas respostas. Mas vejo isso como uma chance de exercermos cidadania, de aprendermos democracia. Eu não vou desperdiçar essa chance!

Fora Sarney!

Huei Lin Alegretti - Curitiba, Brasil

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Uma homenagem ao primeiro aniversário da Crise Financeira Mundial" - Marcelo C. Madeira

Pane na máquina do espírito

Há algo de errado
Na máquina do espírito
É falta de óleo
Ou falta de brio

Ou quem sabe

Uma mania hipocondríaca
De explorar a cobiça
Aos limites limítrofes
Do preço mais cotado
do cambio flutuante de ideários

Que dia menos dia
Há de queimar o fusível
E explodir o coração

As veias entupidas de dinheiro
Esse material abstrato
Sem valor natural
Apenas o valor agregado

Que gangrena a carne
Que engrena o carro
Que engendra o espírito
Que gera o vício
Que causa o pigarro


Um fino e espetacular
Curto circuito
Que não deixa vestígios

Só fragmentos de culpa
Aniquiladas a murro
Na ponta da faca
Que tira as vísceras rasgadas
De um jovem na calçada

E o velho deitado
Já não entende nada
O espírito já é máquina
Um enguiço retroativo
Marcelo C. Madeira

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Governo lança Vale-Cultura para incentivar a demanda cultural

KARLA LOSSE MENDES
da Folha Online

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou nesta quinta-feira em São Paulo o Vale-Cultura. Acompanhado pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, o governo tem na proposta sua grande aposta para incentivar a demanda cultural e combater as críticas de que se investe muito em produção para um grande público sem acesso a bens culturais.

"Estamos superando o padrão atual em que o aporte de dinheiro é quase que exclusivamente da produção e quase sempre com recursos a fundo perdido. Passaremos aos poucos a estimular o consumo e ver a sustentabilidade em todo o sistema econômico da Cultura", disse Ferreira durante o lançamento.

O Vale-Cultura é concebido nos moldes de um benefício trabalhista, a grosso modo como um vale alimentação. Com o cartão, os beneficiados poderão dquirir ingressos de cinema, teatro, museu, shows, livros, CDs e DVDs, entre outros produtos culturais.

O saldo do cartão é de até R$ 50 mensais e as empresas que concederem o benefício poderão deduzir até 1% do imposto devido. O valor do cartão vai levar em conta o orçamento familiar do trabalhador, segundo a proposta. Como um exemplo, trabalhadores que ganham até cinco salários mínimos arcarão com, no máximo, 10% do valor (R$ 5).

Segundo estimativas do Ministério da Cultura, o vale pode aumentar em até R$ 600 milhões por mês ou até R$ 7,2 bilhões ao ano o consumo cultural no país.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que apenas 14% da população brasileira vai ao cinema regularmente, 96% não frequenta museus, 93% nunca foi a uma exposição de arte e 78% nunca assistiu a um espetáculo de dança.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Uma sem-teto brasileira na Suíça

Como contraste ao luxo do último post, publiquei hoje uma pequena reportagem que fiz com uma simpática jovem brasileira, ex-moradora de rua e atualmente coordenadora do Movimento dos Sem Teto do Centro (MSTC). Acho que vale a pena falar sobre o tema.
Ivaneti de Araújo havia sido convidada pela ONG Anistia Internacional para falar a um público europeu sobre um problema crescente e muito grave no Brasil: o déficit habitacional e o número crescente de desabrigados vivendo nas ruas das grandes capitais do país. Suas palavras emocionaram muitas pessoas, assim como as imagens tiradas por fotógrafos de alguns prédios ocupados em São Paulo.
Por coincidência, assisti há algumas semanas um fantástico documentário no canal de TV franco-alemão ARTE sobre uma biblioteca que havia sido criada na ocupação da Prestes Maia por um catador de papel. Os livros eram encontrados por ele no lixo. Os usuários eram os ocupantes, pessoas de todas as idades que viviam em condições subumanas em mais um desses “balança-mas-não-cai” da maior metrópole do país.
Pessoalmente também acho crítico qualquer espécie de confisco da propriedade privada, porém a Ivaneti de Araújo abriu meus olhos para uma verdade: os prédios e casa abandonados (o que aconteceu com o Castelinho no Rio de Janeiro?) ganham vida com a ocupação. Ao invés de ratos, pombos e desocupados, esses espaços passam a ter famílias inteiras, com muitas crianças. Corredores escuros viram playground. Cozinhas abandonadas passam a ser salão comunitário. E um quarto vazio, passa a ter histórias.
Aqui na Europa já visitei várias casas ocupadas. A mais impressionante surgiu em Berlim nos anos 90, a de um antigo shopping center tomado por anarquistas e artistas. O resultado: um dos centros culturais mais produtivos já surgidos na capital alemã. Na época fiz uma reportagem para o Jornal do Brasil. Em Berna, um antigo estábulo abandonado foi “confiscado” nos anos 80 por jovens esquerdistas. Hoje a Reitschule tem teatro, cinema, restaurante ecológico e até espaço para concertos. Cheguei a ver o grupo alemão Kraftwerk por lá. Será que poderíamos ter o mesmo no Brasil?
Foto: Prédio ocupado no bairro da Luz, São Paulo. Flickr/Oco Sapiens
Alexander Thoele para Swissinfo
Conheça mais sobre o trabalho do jornalista Alexander Thoele

domingo, 28 de setembro de 2008

Carta à revista Veja

"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.
Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.
A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.
Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do 'filósofo' e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.
Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu 'Norte' e 'Bíblia', esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.
Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
"Ana Maria Araújo Freire"

Destaques do jornalista Pedro Alexandre Sanches
Ilustração de Maringoni, na Agência Carta Maior

domingo, 16 de março de 2008

A sociedade quer ser a favela


Domigo pela manhã é tempo de música brasileira aqui em casa, o que normalmente não escuto, mas domingo de manhã tenho sempre vontade de ouvir algo da minha terra e de preferência um sambinha de raiz. E esta manhã, ouvindo o saudoso Cartola me dei conta do quanto o mundo fervoroso e criativo das favelas se impõe como retrato da nossa arte com força absoluta e unânime aceitação. Abri a revista Piauí (obrigada Alice) e me deparei com uma propaganda do filme “Antonia”, por curiosidade fui no youtube e encontrei mais uma produção que me pareceu super interessante, novamente tendo a favela como cenário.

No texto abaixo sobre o filme “Volver” de Almodóvar, Magda fala sobre a sociedade independente que tem a possibilidade de resolver todos os problemas sem sair de “casa”. Na favela é assim! Uma sociedade paralela que tem amparo e apoio no que é necessário. Os vizinhos conversam e não falam somente bom dia, ou como nós que muitas vezes torcemos para entrar sozinhos no elevador, sem ter qualquer ânsia de comunicação com o próximo. As cadeirinhas velhas ao lado da porta, onde as tias sentam para ver a vida passar, as figuras costumeiras nas janelas, o conhecimento da vida alheia e a novela que celebra em grande estilo estas comunidades.
O número de favelas no Brasil ultrapassa 19 mil, isto reúne mais de 1,6 milhão de domicílios, onde a população tem cada vez mais que criar seu próprio sistema de sobrevivência, e como a união acontece com muito mais frequência quando passamos por dificuldades, na favela isto é mais do que comum. E a união faz as forças, e dentro destas, a força cultural!
É claro que nem tudo são flores e boemia, tem o lado do tráfico, das dificuldades, a falta de escolaridade, da fome, da criminalidade e da falta de formação de valores, característica esta que é também facilmente encontrada fora das favelas, do norte ao sul do nosso país. Mas este é tema para um próximo papo, agora quero falar somente deste caldeirão criativo.


Na década de 20 já existia a preocupação com "o que era o Brasil", e a política facilitava este debate pois o tema estava na moda, com o modernismo e a semana de arte moderna de 1922, na qual artistas não queriam mais ter somente a referência européia nas artes, queriam sim, representar o Brasil! E isto tomaria muita força com a revolução de 30 com Getúlio Vargas e a definição deste Brasil que a gente conhece hoje. No momento em que a elite procurava o Brasil, ela foi até às escolas de samba, e foi recepcionada com a seguinte frase: -Vocês estão procurando brasileiros? Nós somos brasileiros e temos a capacidade para representar o Brasil!
O cantor Marcelo D2 falou numa entrevista que a zona sul do Rio foi uma das responsáveis pelo sucesso em massa de sua carreira. É verdade. A sociedade canta suas músicas sem sequer prestar atenção nas letras, carregadas de críticas constantes a esta que paga suas contas.
E a classe “mediana” dança o funk carioca nos apartamentos de cobertura, festeja os filmes que tem a favela como cenário, celebra os estilistas que criam alta-costura com o reciclado, contrata belíssimas , “confiáveis” e limpinhas empregadas moradoras das favelas, pagam caríssimo num camarote para prestigiar as escolas de samba (muitas delas financiadas pelo tráfico) e consomem as músicas vindas de lá. Mais um exemplo disso, além da invenção do samba e da ascenção do pagode, é o cantor Seu Jorge, ex-companheiro dos menores assassinados na chacina da Candelária, chacina esta que foi brindada por muitos da sociedade carioca, a mesma que consome a cultura vinda da favela.
Isto tudo sem falar em arquitetos do mundo inteiro que estudam esta bela expressão estética de urbanização. E tem também o “padrão de beleza da brasileira” tão procurado pelos gringos e alimentados pelo mercado interno. Bundas e seios fartos, quadril largo, longas pernas, a cor morena do “bronzeado natural”, e assim a sociedade branquinha enriquece os centros estéticos em busca deste padrão. Esta beleza que é facilmente encontrada em qualquer esquina das comunidades carentes. Nos dias de hoje a maioria das mulheres queriam ter sangue africano correndo em suas veias e a beleza da mistura estampada no seu corpo mesmo que o preconceito ainda seja forte em nosso país.

Antes a burguesia já sabia que era na senzala que tudo era mais mais divertido, haviam danças, músicas, risadas largas, comportamentos livres, festas, criatividade, paixão e sensualidade. Tudo isso continua existindo e cada vez mais forte, mas agora a senzala não existe mais, mas a pulsão criativa das comunidades carentes é o pano de fundo mais desejado e explorado pelos produtores da elite cultural.
Portanto sentir-se brasileiro com estas referências, não é uma questão tão atual, pois a sociedade sempre quis ser favela sem sair de dentro dos apartamentos da Barra. Em grande estilo!

Thais Aguiar - Zurique, Suíça