Sabe quando você está naquela correria, longe da terrinha há muito, falando outra língua sem nem se dar conta e, de repente, entra num lugar que está tocando uma música brasileira? -"Ufa!" Respirei aliviada sem nem saber porquê. Como se o tempo tivesse parado por alguns segundos. Ouvi só a música, sem nada mais. Uma voz macia, uma bossinha nova. -"Quanto tempo..." pensei.
E o tempo passa. Agora, de 4 a 22 de junho, tem participação brasileira no Sydney Film Festival. Depois de uma pequena participação no Sydney Latin American Film Festival, com apenas um curta, eles e nós teremos a chance de ver mais pouquinho da cara do Brasil aqui, além mar. Apesar da mostra competitiva não contar com nenhum filme brasileiro, a participação brasileira não decepciona. Entre outros mais famosos, como "Tropa de Elite", o cinema brasileiro responde presente em uma sessão de curtas intitulada "Best of Brazil". Também estamos dentro da "Digital Innovators" com uma seleção da "Videobrasil" 2007, explorando as fronteiras do cinema e do video arte. E mais. Pois hoje, nesse mundo tecno-global, tudo está mais perto. Nunca foi tão fácil ouvir música, ver filmes e tomar um Guaraná. Assim vou indo, sendo surpreendida com a participação brasileira pelo mundo a fora. Cada vez mais presente, fico sempre-muito-feliz-mesmo quando vemos e mostramos além das bundas.
O livro de Nelson Motta sobre a vida de Tim Maia simplesmente VALE TUDO!
Sem censura, restrições ou julgamentos, Nelson Motta narra com paixão e irreverência a vida eletrizante de Tim Maia em “Vale Tudo - O Som e a Fúria de Tim Maia”. Transgressor, amoroso e debochado, o cantor que gostava de se definir como “preto, gordo e cafajeste” se consagrou como um dos melhores, mais queridos e respeitados artistas da música brasileira, o rei do samba-soul. No ano em que se completaram dez anos de sua morte, a história de Tim Maia é resgatada por um de seus amigos mais próximos. O jornalista, compositor e produtor musical Nelson Motta parte da memória da intensa convivência com o cantor (e pesquisa minuciosa) para contar uma história de som, fúria e gargalhadas em torno de um dos personagens mais ricos, divertidos e originais do Brasil moderno. O livro é uma viagem pela vida do cantor, a começar pela infância e juventude, no bairro carioca da Tijuca, até os seus últimos dia de vida em 1997. Para quem ainda não teve oportunidade, por favor, não perca esta leitura agradabilíssima, que vai ficar na sua memória por muito tempo. Este é um daqueles livros que a gente devora, não consegue parar de ler e fica triste quando termina. A receita para este sucesso: a combinação da redação leve e inteligente de Nelson Motta com a louca e intensa história de um personagem único, polêmico e talentoso como Tim Maia. Esta foi das biografias mais divertidas e interessantes que já li. Tim Maia era uma figuraça! E as estórias que se passaram na vida deste ser “magnético”, beiram a incredulidade. Tim era doidão, furioso. Um exagero em várias frentes, no tamanho, na fome, na raiva, no talento, na criatividade. Leia, e depois você vai ficar querendo, como Tim Maia, mais: "Mais grave! Mais agudo! Mais eco! Mais retorno! Mais tudo!".
Por razões que desconheço, a vida insiste em me conectar à Itália. Não tenho antepassados italianos, fato muito comum no Rio Grande do Sul, meu estado de origem. Nunca estudei a língua italiana, e meu interesse pela Itália sempre foi o da grande maioria dos mortais: viajar e conhecer a linda e romântica terra. Esta situação mudou quando comecei a namorar um Italiano, Milanese, com quem dividi muitos anos que me aproximaram da cultura, da geografia e das peculiaridades que envolvem o povo italiano. Durante anos tive a oportunidade de conhecer melhor a música, a literatura, o cinema italiano, e fazer parte de uma “típica” família italiana. Minha relação com Riccardo acabou há algum tempo, mas a vida de novo fez meu caminho cruzar com a Itália. Desde o fim do mês de fevereiro tenho vivido em Roma, atual capital italiana e, por quase mil anos, o centro da civilização ocidental. Mudei para Roma para trabalhar num projeto de pesquisa cientifica na (em tempos idos) muito célebre Universitá di Roma, La Sapienza, fundada em 1303 e atual maior universidade Européia. Sendo brasileira e depois de ter vivido cinco anos em Zürich, a experiência de morar em Roma, e conhecer de perto a vida em uma grande cidade italiana, tem sido, para dizer pouco, inusitada. Já viajei muito pela Itália, conheço quase todas as principais cidades e várias pequenas jóias, que me fizeram pensar em ficar para sempre. Mas garanto que existe uma diferença enorme, que pode mudar nosso ponto de vista, entre conhecer a Itália como viajante ou morar no país. Também acredito que viver no ambiente urbano das grandes cidades italianas seja uma experiência totalmente distinta do que viver em cidades de tamanho médio, ou em pequenos “paesinos”. Do ponto de vista de uma mulher brasileira, cientista, apreciadora de toda a forma de arte, e apaixonada pela diversidade e pela riqueza de viajar, vejo a Itália hoje além do país dos sonhos românticos e, absolutamente, discordo com o a expressão brasileira: ”italiani tutti buona gente”! Italianos são os mais caóticos objetos biológicos existentes na natureza. Brasileiros que acreditam que são os Portugueses desprovidos de raciocínio lógico, nunca tiveram a oportunidade de contemplar a atitude dos italianos no trânsito. Eles (elas também!) são os motoristas mais ignorantes e bárbaros do mundo, pondo à prova o conceito da evolução humana. Italianos pensam complicado, não importa o grau de instrução. A distância entre dois pontos para um italiano nunca será uma reta. E isto salta aos olhos de qualquer bom observador, no mais corriqueiro hábito italiano: o caffè nel bar. Além das mil e uma possibilidades – expresso caldo/freddo,, expresso macchiato caldo/freddo, expresso lungo, decaffeinado, decaffeinado com latte e poca schiuma, caffe d’orzo, cappucino, latte macchiato, caffè corretto, americano, americano coretto com grappa, caffè na tazza, na tazza grande, caffè nel vetro, com panna, doppia panna, etc, etc (só mesmo italianos ou rigorosos estudiosos da arte de preparar café podem entender todas as variedades) – tomar café no balcão na Itália é, na minha opinião, um ato de coragem.
Digo isso após presenciar diariamente a quase selvageria presente no hábito que tantos estrangeiros idealizam como chic, refinado, civilizado. Italiano que é italiano de verdade toma café naquela confusão e aperto, com dezenas de braços sobre a cabeça, com o barman suando e correndo como louco, naquela barulheira (porque todo mundo fala MUITO), sob cotoveladas e empurrões, prensado contra o balcão pela massa muito pouco gentil e voraz querendo seu espaço.
Eu já me conscientizei que jamais irei me acostumar ou adaptar a esta “cultura do mais forte (e menos gentil) que predomina” que existe aqui. Vou sempre passar horas na fila do bar (para alcançar, educadamente, meu simples cappucino), da pizzeria, da pasticceria, da gelateria... e acabar sempre irritada, furiosa e impressionada com a atitude de “questa brava gente”! Minha experiência em Roma terminará antes do planejado, pela minha insatisfação com a péssima qualidade de vida e frenesi da cidade. Mas da Itália, quero permanecer com a impressão positiva, registrar na alma e na memória a beleza e os encantos deste país tão suigeneres. E ainda que no contato mais próximo eu tenha descoberto que é um mito a idéia de que todos os italianos são abertos, bem-humorados, gentis e solidários, vou sempre manter minha profunda admiração pela civilização que deu ao mundo... as cores de Michelangelo, as formas de Bernini, a pureza da pintura de Rafaello, o contraste de Caravaggio, o mistério do conhecimento de Leonardo da Vinci. A arquitetura inacreditável e poética de Ravello, Venezia, Firenze, Cinque Terre, Positano e Amalfi. A obra de Vivaldi, a música de Ângelo Branduardi e Fabrizio de André, a literatura de Primo Levi, o cinema de Fellini, Tornatore e Salvatores...
Vejam, não quero escandalizar-lhes com esta frase, com pouco fundamento nesse blog de questões sociais e culturais, nem tampouco fazer qualquer tipo de polêmica. O fato é que outro dia falando com a minha íntegra amiga Thais tive uma grande surpresa ao sair de sua íntegra boca a frase: "Tenho uma puta alergia desse pólen do caralho!"
Ela ainda se desculpou dizendo que estava passando por uma fase um pouco adolescente, mudou de assunto e perguntou se na Itália estava fazendo sol, eu respondi - "melhor não perguntar pelo sol aqui na Europa que ele logo se esconde, puta que o pariu!"
Vejam amigas, não sou o perfil de pessoa que o usa o palavrão para se defender, mas devo admitir que desde que me mudei para a Europa, escutá-lo me traz uma estranha sensação de saudade e também alívio, me sinto em casa. Sim, porque palavrão tem mais sentido na língua de origem. E eu fui despejando um balde fodido de palavras não toleráveis na nossa sociedade pudica e reprimida.
Mas a "ciência do palavrão" pode nos explicar e esclarecer muito da nossa necessidade física e emocional em aliviar a tensão dessa zona cerebral reprimida. Pesquisas recentes mostram que as palavras sujas nascem em um mundo a parte dentro do cérebro, enquanto a linguagem comum e o pensamento consciente ficam a cargo da parte mais sofisticada da massa cinzenta, o neocórtex. Os palavrões moram nos porões da cabeça. Mais exatamente no sistema límbico. É o fundo do cérebro, a parte que controla nossas emoções. Trata-se de uma zona primitiva: se o nosso neocórtex é mais avantajado que o dos outros mamíferos, o sistema límbico é bem parecido. Nossa parte animal fica lá. Uns são contra o palavrão, admitindo o seu uso por outros somente em determinadas ocasiões. Cacilda Becker defendia-o no teatro: “Quando o palavrão vem dentro de um espetáculo de cultura e atende às necessidades indiscutíveis de esclarecimento do público - em todo o Brasil normalmente culto - faz parte da obra de arte e é absolutamente justificado. Condená-lo é uma atitude, se não hipócrita, ao menos ignorante”. Oduvaldo Viana era totalmente favorável ao uso do palavrão no teatro, acrescentando, porém: "Não é qualquer um que consegue usá-lo bem; o seu emprego é uma arte”. O escritor Gilberto Freyre disse: "No momento exato, sim, o palavrão é necessário.”Quase todos falam palavrão; quando não falam, pensam o palavrão!
Mas isso amigas, nao quer dizer que precisamos sair por aí dizendo palavrões, é só para ter consciência que quando a saudade apertar, sabemos aonde começar o nosso resgate cultural.
Aliás, antes que eu me esqueça: “tô com uma puta saudade do Brasil!”
Sou do tempo em que enciclopédias eram objetos de difícil acesso, caros e que pertenciam ao reino dos estudantes, ou dos estudiosos. Livros grandes, pesados, com capas sisudas, de aspecto tradicional. Creio que consultar enciclopédias não fosse um hábito freqüente, mesmo que muitas famílias as tivessem em casa. Eu, mesmo tendo estudado muito e por longos anos, nunca tive o hábito ler este tipo de livro. Mas o desenvolvimento da tecnologia da informação e a internet criaram mais uma grande revolução, a revolução do acesso e da troca de conhecimento.
Para quem não conhece, na internet existe uma coleção de páginas, chamada Wikipedia, contendo artigos sobre as mais diversas áreas do conhecimento humano. A Wikipedia, chamada de Enciclopédia Livre, num conceito moderno, está disponível em 257 idiomas, e apresenta mais de 7.5 milhões de artigos. O maior conteúdo se encontra nas versões em inglês (mais de 2.360.000 artigos) e alemão (mais de 745.000 artigos). A versão em português apresenta atualmente mais de 376.000 artigos. O conceito moderno refere-se não somente à facilidade e velocidade de acesso ao conteúdo, mas principalmente à forma como este é adicionado à enciclopédia. Na Wikipedia, qualquer um pode adicionar novos artigos, modificar e ampliar artigos pré-existentes. Este conceito, chamado “Wiki”, caracteriza qualquer rede de páginas web, contendo as mais diversas informações, que podem ser modificadas e ampliadas por qualquer pessoa através de navegadores comuns, ou qualquer outro programa capaz de ler páginas em HTML e imagens. Nos moldes da Wikipedia existem outros projetos, todos hospedados pela Wikimedia Foundation (organização não-governamental situada em São Francisco, nos EUA): (i)Wikinews; (ii)Wiktionary; (iii)Wikiquote; (iv)Wikibooks; (v) Wikisource; (vi)Wikispecies; (vii)Wikiversity. A Wikibooks apresenta uma coleção de livros e textos didáticos de conteúdo aberto, enquanto a Wiskisource contém uma biblioteca com livros e textos de domínio público (atualmente 106.397 textos na versão em inglês e 16.304 na versão em português). Ainda que exista certa controvérsia e preocupação, principalmente relacionada ao fato de que qualquer um, especialista ou não, poder editar o conteúdo, a Wikipedia é um grande sucesso. Atualmente a enciclopédia é não somente o maior trabalho de referencia geral disponível na internet, mas também o de mais rápido crescimento e popularidade - a versão inglesa esta entre as dez páginas web mais visitadas do planeta. Eu, com minha eterna sede de conhecimento, acho a Wikipédia uma das melhores criações da internet. Imagino que, todos os que por curiosidade se deixaram levar pelo fluxo aleatório de conhecimento que as páginas propiciam, já experimentaram a delicia de surpreender-se com esta moderna fonte de informação. O conteúdo da enciclopédia e extensivamente “cross-linked", i.e., na descrição de um determinado assunto, conceitos que também possuem uma página descritiva na Wikipedia, podem ser acessados através dos links. E é uma grande diversão descobrir as informações mais interessantes e curiosas (às vezes aquelas bem inúteis, mas que tornam a vida mais leve) que a pessoa jamais pretendeu ou imaginou saber quando entrou na Wikipedia para pesquisar o seu assunto de interesse.
Para terminar vou dar um exemplo divertido desta maravilha que é a Wikipedia. Um dia destes resolvi ampliar meu conhecimento sobre o tema “Magical Realism”. Encontrei na versão em inglês tudo (e muito mais) que podia imaginar sobre o assunto. Mas a minha curiosidade, razões subjetivas e componentes aleatórios, me levaram à página que descreve o conceito de “serendipity”. Por sua vez esta me levou a descobrir, entre clics, e clics, que os efeitos do LSD (Lysergic acid diethylamide) foram descobertos serendipitously (casualmente) pelo químico Albert Hofmann, na Suíça (onde fiz pesquisa, em Química, por anos) no dia em que ele ingeriu acidentalmente uma pequena quantidade do composto que acabara de sintetizar e notou sua própria alteração psíquica. Três dias depois, Hofmann resolveu ingerir voluntariamente 250 microgramas de LSD para testar mais a fundo os efeitos do composto. Sentindo-se muito mal com os primeiros efeitos da droga, teve que ir para casa, escoltado pelo assistente de laboratório, no seu habitual meio de transporte, a bicicleta.
Na bicicleta, teve o que foi registrado como a primeira "viagem de ácido" da história: delírios e alucinações terríveis, e alterações psicológicas que permaneceram até o dia seguinte. Esta data marca o nascimento da célebre droga que fez tantas famosas almas artísticas delirarem e produzir aclamadas obras e tantas outras almas se perderem no caminho. Entre os que usaram a droga pelo prazer de experimentar as viagens psicodélicas, este dia, 19 de abril de 1943, ficou conhecido como “Bicycle Day”. Para minha surpresa e diversão, “the Bicycle Day”, 19 de abril, é exatamente a data de aniversário do meu namorado, também cientista na Suíça, que vive na bicicleta, e assim como Hoffman, usa a magrelinha todo santo dia para ir e vir do laboratório. Mas que, para meu alívio, ufa, não usa LSD ;-) ! Para experimentar uma “grande viagem”, no conhecimento humano, visite uma hora destas a Wikipédia - http://wikipedia.org/ – relax and enjoy!!!!
Cristina Pereira, Roma - Itália
P.S.: todas as informações históricas contidas neste artigo foram obtidas na Wikipedia em inglês, http://en.wikipedia.org/, onde as referências originais podem ser encontradas.
Mulheres que escolhem Portugal e Espanha para estudar, fazer negócios ou simplesmente mudar de ares têm que provar o tempo todo que não estão lá para se prostituir ou arrumar marido. Fomos aos dois países rastrear as origens do preconceito – que se espalha pela Europa e está cada dia mais agudo.
A estudante gaúcha Manoela Rysdyk, 28 anos, e uma amiga andavam em Lisboa, pelas ruas do Bairro Alto, cheio de bares charmosos e onde não circulam carros. Um motorista afoito surgiu num Alfa Romeo, buzinou e gritou para elas saírem da frente. Manoela respondeu e o homem, irritado, saiu do carro já acertando socos e pontapés nas duas. A polícia chegou, o português se adiantou: “São prostitutas brasileiras”. Enquanto a gaúcha e a amiga tentavam dar a versão delas, o policial pediu o passaporte e decretou: “É mentira, vocês são mesmo prostitutas brasileiras”. Manoela ficou uma semana sem pôr o pé na rua, chorando. Pouco tempo depois, de volta a Porto Alegre, recebeu o diagnóstico de síndrome do pânico. Na Espanha, a nutricionista paranaense Sueli Moreira, 38 anos, preferiu perder a fiança que pagou a continuar na república onde alugava um quarto. Como parte do seu doutorado pela Universidade de São Paulo, precisava passar sete meses em Barcelona. Já nos primeiros dias no novo endereço, onde viviam apenas pós-graduandos estrangeiros, ouviu da esposa de um colega a determinação de não chegar perto do marido dela: “Toda brasileira é prostituta”, sentenciou. São situações como essas que as brasileiras têm enfrentado no dia-a-dia em Portugal e na Espanha. Não faz diferença nem o grau de formação, nem a qualificação profissional, nem mesmo o tipo físico. No imaginário europeu, a mulher brasileira é livre, sensual, não mede esforços para atingir seus objetivos e não vê barreiras que a impeçam de trocar de par se ela não está feliz. Essa lista de atributos atesta que estamos falando de uma mulher bem-resolvida e dona de si, mas na Europa tem sido sinônimo de mulher volúvel, infiel, cidadã nada confiável.
Patrícia Jota de Lisboa, e Daniel Setti, de Barcelona
Hoje sou uma rapariga³ que só pensa em sexo. Confesso passar a maior parte dos meus dias pensando em sexo. Nem sempre foi assim. Quando praticava sexo não era necessário pensar tanto. Agora não pratico nada, nem chocolate como pra conter a ansiedade. O chocolate de Portugal não conquistou o meu gosto e nem tenho um gosto assim tão exigente, mas os sorvetes são bons. Claro que pelo fato de não praticar sexo e continuar chupando sorvetes só aumentam as calorias, que se transformarão em inimigas gorduras localizadas, mas não vamos falar disso. Pronto, aqui está o maior ponto que me causa sofreguidão, a saudade dos homens do meu país. No Brasil, conseguia ter meus romances, poucos, sem me preocupar em ser “a melhor” ou a “verdadeira mulher brasileira” na cama, no carro ou em outro lugar qualquer.
Os homens portugueses ainda “valorizam” a beleza da mulher brasileira. Nós brasileiras ainda fazemos parte do imaginário sexual dos gajos espalhados na Europa, foi o que me disseram os ansiosos que provei, opa! Quero dizer, foi o que me disseram aos que perguntei.
Agora, deixando a minha constante insatisfação amorosa de lado, farei uma pequena reflexão sobre tal idéia de brasileira como sinônimo de realização da fantasia sexual dos gringos. Será que esse estigma existe mesmo? O futebol e o samba brasileiro são internacionalmente reconhecidos, respeitados e copiados, e nós mulheres brasileiras, somos internacionalmente reconhecidas, respeitas e copiadas?
Não tenho uma protuberância das bandas que compõe a minha bunda, também não tenho a cor na pele do sol do verão de um país tropical. E os olhos? Que cor tem os olhos de uma mulher brasileira? Como deveria ser uma mulher pra ser tipicamente brasileira? Existe o tipicamente brasileira? Metaforicamente estas questões me colocam em posição extremamente “sem pátria”, sem identidade. Onde está minha identidade? Na cor dos olhos, da pele, do tamanho da bunda e do sotaque? O que é identidade? Quando falo um simples “oi” num café português, já percebem pela melodia da palavra que sou brasileira, neste momento recebo uma identidade, sou brasileira. Então pergunto: - Conhece o Brasil? Eis que me responde com prontidão: - Conheço, pelas vossas novelas, são giras! Imediatamente me vem a imagem da Susana Viera, com seu cabelo esticado escorrido e pintado de louro, e com a pele totalmente bronzeada artificialmente. Claro, só pode ser bronzeamento artificial (10 sessões R$ 90,00 em toda esquina brasileira). Ela lindamente, nossa representante no estrangeiro, ou seja, o padrão modifica nas novelas. Por isso pintei meu cabelo de louro também, senão como seria reconhecida como brasileira em Portugal com meus cabelos avermelhados (sim, sou ruiva natural)? Quando estive no próprio Rio de Janeiro (onde são gravadas a maioria das novelas), antes de embarcar pra Portugal, fui passear na praia e um menino vendedor me abordou em inglês, então perguntei em português, por que ele me abordou em inglês e ele me disse que eu não parecia brasileira. Assim já tenho outra identidade qualquer. Pintar o cabelo de louro já não funciona.
Resumidamente: nós brasileiras podemos ser confundidas naturais de outro país. Melhor que seja assim e então poderemos usufruir um sexo sem grandes expectativas e cobranças dos gringos. Mas afinal, por quê a mulher brasileira tem que ser “quente”, “gostosa” e saber sambar? Hum, acabo de me lembrar do menor tapa sexo do mundo usado pela modelo (brasileira) Viviane Castro, no carnaval de São Paulo. Será que ela tem algo a ver indiretamente com nossa imagem no exterior? Identidade serve para te identificar, te prender e te libertar, pois somente sua cara, sua cor, seu corpo não são capazes de te definir a raça, quando, na verdade, a raça humana é raça humana. Não precisa identificar e sim aprender a respeitar.
Obs: Este texto é reflexo de um sexo mal feito com gringo, fico estressada (risos).
1 – Gajo em português de Portugal significa o mesmo que rapaz, homem ou “cara”.
2 – Giro em português de Portugal significa o mesmo que bonito ou lindo.
3 – Rapariga em português de Portugal significa o mesmo que moça, menina ou mulher, não tem caráter perjorativo como na linguagem brasileira.
Marcelina - Lisboa, Portugal
Lixo. Não serve mais. Já usou. Já gastou. Joga fora no lixo. E alguém já cantou. E todo mundo produz lixo. No Rio de Janeiro, costumava usar as (malditas) sacolinhas de plástico do supermercado forrando um balde de plástico como minha lixeira. Todo lixo da casa, que não era jornal ou PET, ia pra lá. Depois, os prédios cariocas em que já morei tinham um sistema sensacional: era só abrir uma portinha mágica, que costumava ficar perto da escada de cada andar, e jogar o lixo fora. Só tinha um inconveniente, essa portinha mágica fedia. Os jornais e PETs colocava-se no elevador, alguns moradores avisavam ao porteiro para retirar o lixo lá embaixo. Fim. O lixo se foi para sempre. “Joguei fora”. Tudo muito simples. Mas, nada é para sempre... Logo, na periferia, a saga do lixo continua. Montanhas enormes crescem e crescem. Em ano de eleição, provavelmente, alguém pode tocar no assunto do destino do lixo. Soluções inovadoras e DEFINITIVAS surgem. E só surgem... Reciclagem? Sim, tem alguns pontos de reciclagem de papel na cidade, que funcionam como cooperativas dos catadores de papel. Visitei a do bairro de Botafogo. PET algumas ONGs trabalham o material, visitei uma no bairro vizinho de Laranjeiras e outra na Gávea. Sim, seja qual for o motivo motor dessas ONGs ou cooperativas, acredito que são trabalhos válidos na direção do tratamento do lixo. Um ponto a destacar: os catadores de papel, cooperativados ou não, compram o papel. Sim, é o trabalho deles. Os que trabalham na cooperativa recebem um salário de miséria. Novidade nenhuma. Sempre produzindo lixo, fiz algumas visitas prolongadas à Paris. Lá a experiência foi rápida. Em algumas regiões não vi separação alguma do lixo. Tudo junto nos containers. Aquele caminhão de lixo voraz passa e leva. Num bairro mais rico a coleta era seletiva. Tudo separadinho: papel, papelão, vidro, plásticos e plásticos, lixo orgânico, alumínio, etc. Ainda produzindo lixo, morei quase dois anos em Zurique. Lá, digo logo, foi a experiência mais limpa que tive com o lixo. Acredito que em boa parte dos países, os impostos sejam direcionados para a questão do lixo. Lá, pagou-levou. As sacolinhas de lixo devem ser compradas. Papel e papelão devem ser separados e devidamente amarrados, cada um tem seu dia de coleta. PETs são retornados aos supermercados. Importantíssimo, pilhas e baterias também. E lâmpadas queimadas também. Cada um no seu lugarzinho. Os vidros são separados por cor e devem ser depositados nos pontos de coleta específicos onde também tem um container para os alumínios. Uma razão para toda essa separação deve existir.
O que não foi depositado nos pontos de coleta, vai para a sacolinha comprada. A sacolinha comprada, vai para a estação de “tratamento”. Dizem ser uma das mais caras da Europa. Tecnologia de ponta. Sei que sai uma fumaça branca de lá. Dizem que é limpa. Isso no dia-a-dia, porque, acreditem, “jogar fora” em Zurique pode se tornar um pesadelo. Eletrônicos, móveis, tudo e sei lá mais o que deve ser depositado no seu lugar específico. Algumas vezes, com taxas bem específicas. “Se livrar” de algo pode também custar caro. Agora, ainda produzindo lixo, estou em Sydney, na Austrália. Na garagem do prédio onde moro tem um quartinho do lixo. Fedorento. Cointainers de tampa vermelha para o lixo em geral, que normalmente embalo, novamente, nas (malditas) sacolinhas de plástico dos supermercados. Os de tampa amarela, com dois compartimentos, um para papel e papelão e outro para vidros, latas e PET. Não faço a menor idéia para onde isso tudo vai, ou o que acontece quando, na segunda-feira, os containers voltam vazios para o quartinho, depois de passarem o domingão tomando sol em frente ao prédio. Esses dias recebi uma cartinha da prefeitura local, dizendo que, agora, o de tampa amarela não terá mais a divisão que antes separava o papel e papelão das garrafas em geral. Tudo bem. Afinal, continuamos tendo pelo menos um container de lixo que será reciclado. Mas, se alguém pode fazer (separar) por mim, por que eu separaria? Não é!? Muita gente pensa assim... E ainda fica a questão: para onde isso tudo vai? Às vezes penso quando vou ao quartinho fedorento me livrar do que estava sujando o meu ap. Não que eu tenha grande apego à matéria. Muito pelo contrário. Mas e então, tudo agora acaba no quartinho fedorento?
Filmes são bons para várias coisas. Para rir, chorar, relaxar, matar o tempo, dias de chuva e também para pensar. Ah, adoro filmes que me façam pensar, que me tragam novas idéias ou que me façam mergulhar em minha alma. E um diretor que tem me feito pensar muito nos últimos tempos é Sean Penn. É, ele mesmo, aquele ator que antigamente era conhecido por ter sido o marido da Madonna, numa relação pra lá de turbulenta. Mas isso a gente deixa para as revistas de celebridades. Apesar de ter essa má fama, Sean Penn mostrou-se capaz de realizar ótimos filmes e o que mais gosto neles são os temas. Ele escolhe histórias que nos fazem refletir sobre o sentido de nossas vidas.
Em „Vinte e um gramas", do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, ele protagoniza uma história que lança a discussão sobre a existência da alma. O fato do corpo ficar vinte e um gramas mais leve quando morremos não seria a prova da existência da alma? O vaticano está pensando no assunto. Em outro filme, „A promessa" (2001), com Jack Nicholson no papel principal, Sean Penn baseia-se no livro de Friedrich Dürrenmatt, contando a história de um policial aposentado e sua obsessão em caçar um criminoso, pedófilo e assassino. No final, o protagonista não consegue capturar o criminoso, que morre num acidente de carro, sendo assim jamais descoberto e punido e ainda expondo a vítima, uma menina, a um grande perigo. A frustração é pura e única no final do filme: é como se uma pessoa idosa estivesse condenada à inércia e ao fracasso, não podendo fazer nada para mudar o destino das coisas. Não dá pra dormir depois de ver esse final. Ele é inaceitável, ele quase conseguiu capturar o cara, quase venceu, quase...
O filme que assisti na semana passada e que e me inspirou a escrever esse texto é "Na Natureza Selvagem" (Into the Wild), baseado numa história verídica e no bestseller literário de Jon Krakauer. Depois de se graduar na Universidade de Emory em 1992, Christopher McCandless, estudante de topo e atleta, movido a uma desilusão familiar, decide largar tudo. Ele desfaz-se então de todos os seus bens materiais - documentos e dinheiro - e parte em direção ao Alasca. Lembrei-me de uma cena da juventude, quando há muito tempo atrás, viajando com um grupo de amigos pela Bahia, eu joguei minha carteira no mar. Hahaha, eu juro! Tudo bem que cinco minutos depois fui procurá-la, desesperada, e por sorte, (ou azar?) a encontrei. Mas a sensação de liberdade foi muito boa, foram os cinco minutos mais livres de minha vida. Acho que todo jovem que já colocou as mochilas nas costas e saiu por aí se identifica com o personagem principal do filme. Sem lenço nem documento, Christopher vai se virando por dois anos, trabalhando aqui e ali, vivendo dias intensos e encontrando uma série de personagens que dão forma e sentido à sua vida.
Vivemos num mundo extremamente consumista, perdemos totalmente a noção dos nossos valores interiores. Não conseguimos mais nos desapegar das coisas materiais. Things, things and things... Na Natureza Selvagem é um manual de sobrevivência sem sobrevivência. O mocinho da história queria sobreviver com o mínimo possível. Quando ele chegou no Alasca estava totalmente despreparado. Isso era proposital. Tenho lido várias críticas sobre pessoas que vêem o filme e dizem que ele foi tolo em não estar devidamente preparado para o Alasca. Mas será que não estava faltando o espírito de aventura nessas pessoas que têm essa opinião? Será que elas entenderam o objetivo do garoto? Temos sempre que viajar preparadíssimos, de mala e guarda-chuva? Temos que viver sempre cercados de coisas? Isso não atrapalha no desenvolvimento humano? Qual é o sentido de viver uma aventura? E se alguém quer mergulhar no selvagem, como sugere o título do livro e filme, como Christopher, isso não é permitido? Foi sua escolha, não foi?
Christopher era um bom menino, consciente e inteligente e o mundo precisa mais do que nunca de pessoas assim. Ele nos deu uma lição de desapego, de ser só por ser. Esse foi o sentido de sua viagem. O filme ainda conta com fotografia e trilha sonora lindíssimas. Essa última elaborada pelo vocalista do Pearl Jam, Eddie Veder, cantando essa história, esse amargor, essa explosão de vida. Ai, a vida...
Eu não sei se isso acontece com todo mundo, mas... eu tenho uma dificuldade tremenda de dizer NÃO.
Bom, acabo de receber uma mensagem da minha amiga, perguntado se eu queria escrever algo para a Revista, mas não tinha um tema. E, pensando nisso, lembrei do meu companheiro de apartamento que está passando por um período muito complicado na vida. Problemas de saúde estão afetando a sua vida financeira. Ele vem, pára na sala e pergunta se tenho 10 dólares para emprestar para ele comprar cigarros. Meu primeiro pensamento foi NÃO, eu NÃO tenho, e agora eu explico o porque do NÃO. Sou brasileira, moro na Austrália há quatro anos. Há quinze dias voltei de uma viagem de cinco meses pelo Brasil, Argentina e Bali e por conta disso tambem NÃO tenho dinheiro no momento. Na volta tive problemas em conseguir o emprego que estava definido a acontecer e uma dificuldade imensa de readaptação, já que passei quase seis meses fora, de férias e com minha família, coisa e tal, e para completar meu relacionamento foi por água abaixo. Isso pode parecer que não tem nada a ver como assunto, mas logo vocês vão entender. Bem, no momento em que meu amigo me pediu o empréstimo, minha intenção era falar NÃO, mas NÃO consegui. Dos únicos cinqüenta dólares que posso gastar até sexta-feira, dei 10 para ele e ao fazer isso, pensei comigo: por quê não disse NÃO? NÃO posso, NÃO tenho, me desculpe, sei que está com problemas, mas eu também estou. Enfim, meu lado humanitário falou mais alto ou eu simplesmente não quis criar conflito. Ou ainda fiquei com medo de ouvir um NÃO se eu, em algum momento da minha vida, precisar de 10 dólares?
Refletindo sobre o fim do meu namoro (sim, estou solteira de novo) e o término foi por motivos que desde que conheci Phil sabia que NÃO aguentaria a barra, mas não disse NÃO e me envolvi, me apaixonei e descobri que realmente NÃO é a situação que quero estar. Então ele me perguntou: - Maggie, antes de começarmos a namorar você já sabia disso, já sabia como era minha vida. Então por quê você se envolveu comigo? E eu respondi: - Não sei. Mmas eu sei. Não soube encontrar as palavras para dizer NÃO, para utilizar o auto-conhecimento que tenho de mim mesma e deixar a relação somente na amizade. Mesmo me sentindo atraída por ele, eu achei que eu poderia mudar? Ou que a situação dele iria mudar? Não, eu sabia que isso não mudaria.
Meu companheiro de quarto acaba de voltar com o troco e eu acabo de aprender a lição: assim como o sim, o NÃO tem muitas faces. Dizer NÃO quando realmente não podemos, quando realmente nossa situação, sentimentos e real vontade é dizer NÃO, a única coisa que podemos fazer por nós mesmos é dizer NÃO. Eu realmente NÃO posso emprestar e pagar nada para ninguém nesse momento. Sei que terei meus 10 dólares de volta, mas não sei quando, já que eu sei da situação dele, mas ele não sabe da minha e se amanhã de manhã eu cobrar dele, sei que ele vai falar que NÃO tem, talvez, no mês que vem e quando eu ouvir o NÃO dele mais uma vez, me perguntarei: POR QUÊ DISSE SIM, QUANDO DEVERIA TER DITO NÃO? Qual é o meu problema? Ele ia pensar que estou sendo mesquinha? NÃO, pois eu sei que NÃO sou. E sim, estou num momento de extrema economia. Estamos o tempo todo decidindo mil coisas todos dias, seja um caminho, o que comer, vestir, o que escrever, e é claro que muitas vezes cometemos erros e NÃO sabemos o que decidir. Mas muitas outras vezes sabemos muito bem e insistimos em fazer ao contrário. No fim de tudo quem se complica? Nós mesmos. Então vamos tentar simplificar. É uma delicia dizer e ouvir SIM, mas o NÃO é necessário assim como o sim, quando a verdade deve ser dita e praticada para tornar a nossa vida mais fácil.
SIM, DIGA NÃO, SEM CULPA, SEM JULGAMENTOS, SEM MEDO!
Nós, que vivemos fora do nosso querido Brasil, muitas vezes paramos no tempo e ficamos por fora do que está sendo produzido culturalmente no nosso país. Para não ficarmos completamente alheios a esta movimentação e também não esperarmos que a dica de um amigo bata em nossa porta, existem muitas possibilidades de conhecer este “novo” Brasil, tendo como exemplo, a boa utilização da internet. O ideal é otimizar o nosso tempo em frente ao computador e não ficar sempre perdidos por onde navegar neste limbo de informações. A criação de uma pasta nos favoritos pode fazer com que você se atualize naquilo que mais gosta. Fuçou, fuçou e encontrou um site ou um blog interessante? Adiciona rapidinho, pois a chance de você passar por ele outra vez é rara. Dessa forma você pode ter acesso a canais e conhecer sempre novas pérolas brasileiras que precisam ser descobertas.
Um exemplo disto é a música, com a qual nos identificamos e nos orgulhamos de nossa rica musicalidade e suíngue, e que num papo de bar acaba caindo sempre nos mesmo nomes, sejam eles intérpretes ou compositores (estes quase sempre desconhecidos do grande público, - ah? Ele é compositor?). A questão é muito mais ampla. Atualmente se produz muita coisa boa no Brasil, e muito também no Rio de Janeiro, um dos paraísos escolhidos por muitos músicos para viver e criar, mas poucos conhecem estas criações.
A jornalista Priscila Steffen pesquisa a fundo a música brasileira e leva ao ar toda semana, no canal da UFRJ o programa “Andante”. A repercussão foi tão boa desde o início que a levou criar um blog e uma conta no Youtube. Assim ela insere, sempre que possível, as edições do programa em pequenos blocos, dando cada vez mais visibilidade aos refinados talentos, muitos ainda anônimos no grande Brasil.
“Andante” é um programa simples como nosso povo, com muito conteúdo e boa edição que vale a pena ser conferido. No blog você pode dar uma passeada e connhecer um pouco do que está disponível para ser assistido! Entre os entrevistados estão Mart’nália (a filha do Martinho da Vila), Francis Hime, Natinho da Ilha, Teresa Cristina, Jussara Silveira e Luiz Brasil, Mauro Senise, Arlindo Cruz e muitos outros que tem a música como profissão de talento.
Quem quiser “andar” pelo blog e pelo Youtube sinta-se em casa:
“Mulher é tudo igual, se você bobear os convites vão para a gráfica” Essa frase está no filme “O Cheiro do Ralo” (2007) de Heitor Dália e com Selton Melo como protagonista. O filme foi baseado no romance de Lourenço Mutarelli, mais conhecido no Brasil pelos HQs que escreve. Excelente! Aliás virei uma super fã do cinema brasileiro do início desta década, tenho assistido muitas boas produções, mas esta, quem me conhece sabe, que já comentei várias vezes sobre ele e me segurei para não narrar todas as cenas! Sem dúvida e é claro, na minha opinião, uma das melhores produções dos últimos anos. O site é super bacana e o filme você precisa ir atrás! (Thais Aguiar)
Itália/França, 2007. 100min. Direção: Daniele Luchetti. Estrelando: Elio Germano, Riccardo Scamarcio, Ângela Finnochiaro, Diane Fleri, Luca Zingaretti. Distribuidora: Warner Bros. Itália. Dois irmãos totalmente diferentes um do outro crescem na Itália dos anos 60 e 70. O mais velho é comunista e galanteador, o mais jovem é um rebelde que adora ser do contra e conseqüentemente, torna-se fascista e se apaixona pela namorada do irmão mais velho. O diretor Daniele Luchetti afirma que „Mio Fratello è Figlio Unico“ não é um filme político e trata seus personagens com simpatia e ironia. O tom de otimismo permanece no filme mesmo quando, perto do final, a história da família começa a se tornar uma coisa mais realista. (Magda Hammer)
Lizz Wright - este foi o último concerto em que fui aqui em Zurique (março 2008) e digo: - Foi maravilhoso! Ganhei o cd no meu aniversário, "The Orchard", e junto o convite para vê-la. A negra tem uma voz belíssima dessas que preenchem o ambiente de boas energias e qualidade musical. Num concerto simples, sem grandes produções, as músicas que tiveram no cd participações de John Convertino e Joey Burns da respeitada banda Calexico, ganharam boas interpretações. O Mike achou que ela merecia uma banda mais sofisticada para esta turnê. Uma situação curiosa foi na abertura do concerto quando ela falou: - Zurich is so beatiful und so rich! E os suíços todos riram... foi uma piada? Eu não entendi! Vale a pena conhecer suas músicas e quando tiver um show dela na sua cidade, lembre-se: leve os amigos e desfrute! (Thais Aguiar)
Farufyno – brincando de navegar no limbo eletrônico me deparei com a banda Farufyno, samba-rock da grande São Paulo, um gênero que foi modinha no final dos anos 90 do sudeste ao sul do Brasil. Aos desavisados que pensaram que o gênero não veio para ficar tiveram uma surpresa ao ver que as casas continuam lotadas por um público fiel e cativo. A banda faz releituras de clássicos de Jorge Benjor, Noriel Vilela e Silvio Cesar, além de composições próprias que não ficam atrás de qualquer grande compositor do gênero. A big band conta com excelentes músicos e um vocalista pra lá de carismático! Quando for à São Paulo se informe dos shows e saia para dançar e se não tiver nos planos passar por Sampa, compre o cd! (Thais Aguiar -"ai que saudades do Brasil" )
Fui a um show de Yo-Yo Ma, esta Dinvidade atrás do violoncelo, com a sua banda-projeto Silk Road Ensemble e desde então não consigo parar de sonhar com a energia positiva saída dos diversos instrumentos exóticos do grupo. Os componentes da banda vêm de países diversos (EUA, Bulgária, Iran, Azerbaijão, Uzbequistão, China, Líbano, Mongólia, etc) e fazem um som muito único, seguindo a viagem musical da rota da seda. Vale a pena viajar junto a eles. (Cecília Zugaib)
The Time Traveler's Wife (publicado no Brasil pela Objetiva e Editorial Presença com o título “A Mulher do Viajante no Tempo”), primeiro romance da escritora americana Audrey Niffenegger, narra uma estória de amor nada convencional.
O personagem central, Henry DeTamble, sofre de uma estranha disfunção genética que o faz viajar involuntariamente no tempo. Numa destas viagens ele conhece a menina Claire Abshire quando ela tem apenas 6 anos, e ele 36. Mesmo encontrando Claire em várias de suas viagens ao passado, Henry só a conhece no seu presente, quatorze anos mais tarde, quando ela tem 20 anos e ele 28. Enquanto ele nunca a tinha visto antes, ela o conhecia por quase toda a sua vida, o passado de Claire ainda estava por vir no futuro de Henry. Dois começos para uma das mais inusitadas, fortes e lindas estórias de amor da literatura. O tema “viagem no tempo” é abordado de forma original e sempre sob a perspectiva dos laços de amor que unem os personagens. Um dos romances mais inteligentes e originais que já li, com um tema que nos faz refletir “about the big picture”, e tão bem escrito que, enquanto lia, cheguei a pensar no tempo de forma diferente, relativisando e permitindo a mente viver numa outra realidade cronológica. Fantástico! Desde que comecei a ler, e especialmente numa passagem muito chocante, tive a certeza que o livro seria levado às telas. Hoje, procurando a foto da capa para o blog, encontrei a informação de que esta em produção o filme “The Time Traveler's Wife”, uma adaptação do livro e com roteiro escrito pela própria Audrey Niffenegger. O filme, dirigido pelo alemão Robert Schwentke, tem Eric Bana e Rachel McAdams nos papéis de Henry e Claire e deverá ser lançado no final deste ano. Com certeza vai popularizar ainda mais o livro, e levar esta originalíssima estória aos que não gostam de ler. Mas tenho certeza, o filme nunca poderá substituir a riqueza e a imaginação que emanam das páginas tão bem escritas por Audrey Niffenegger.
Nesta edição da íntegra convidamos a artista plástica Illana Kolling de Freitas para uma super participação: ilustrar os textos de abril. Formada em artes plásticas pela Universidade de Brasilia (UNB), já fez exposições no Centro Cultural do Banco do Brasil intitulada "pós humano" e esta também na galeria da UNB. Em Paris "Sans Titre" de pinturas Chez Mrs.Charbonnier-Frilley e outra na galeria Ginger Lyly de pintura. Illana, depois de 6 anos em Paris, vive atualmente na Suíça e inicia um trabalho de ilustração paralelo a pintura.
Obrigada Illana pela criatividade que deu vida aos textos através da qualidade do traço e do bom gosto nas cores !
Venho de uma família altamente matriarcal, onde as mulheres – avó, tias, primas, mãe, irmã – são personalidades fortes e influentes. As figuras femininas da família Souza destacam-se no trabalho e são admiradas pela sua competência e conhecimento. Em casa, cumprem o papel de mães, donas-de-casa e esposas exemplares e apesar de toda a energia que essas duas funções implicam, espalham a sua feminilidade. A união das nossas mulheres é visível tanto para os homens nascidos na família como para os que a ela se incorporam.
A minha mãe sempre trabalhou e ainda trabalha muito. Ainda assim, sempre recebi seus cuidados, seja na alimentação, na nossa aparência ou educação. Cresci escutando que mulher tem que trabalhar e nunca tive o sonho dourado de casar e ser simplesmente mãe ou a mulher de alguém. Lembro de como me incomodava desde pequena o machismo no Brasil. Menino pode mais, é incentivado a iniciar sua vida sexual e mantê-la super ativa. Menina é fácil e não vale nada se fica com alguns, tem que cuidar da reputação.
Cresci, acabei a universidade e fui estudar em Barcelona. Ao chegar nesta cidade, senti e confirmei em diversas ocasiões novamente o machismo dos latinos também neste país. Para o meu desgosto, mulher brasileira – seja lá quem você for – é prostituta, fácil de cama. Tentei não levar muito a sério e simplesmente acreditar que esse preconceito não passa de ignorância destes nossos hermanos.
A minha próxima parada no velho continente foi a Alemanha, onde tive, em questões machistas, uma experiência boa. Lá as mulheres trabalham e gozam de um certo status, praticamente igual aos homens. Há falhas como ainda a desigualdade de salário, mas também compensações como a licença maternidade de até três anos com direito a voltar ao mesmo posto de trabalho e atualmente o direito de receber por um ano cerca de 60% do seu salário. Na Áustria – onde também morei - o sistema é bastante parecido ao alemão. Há poucas mulheres em cargos de chefia mas ainda assim pude assumir, juntamente com uma colega altamente feminista, um dos postos mais altos da empresa.
Mudei para a Suíça há quase três anos e me encontro atualmente no período crítico para empregadores: casada, sem filhos, entrando nos trinta. Nessa nova etapa da vida, venho sentindo na pele o que o “ser mulher” implica. Apesar de proibido, com direito a ganhar processo caso seja comprovado, não passei na seleção a postos de trabalho por ser mulher. A pergunta “e quando virão os filhos?”, proibida em entrevistas, surgiu 90% das entrevistas que fiz aqui. Noto a disparidade de salários entre homens e mulheres ocupando os mesmos postos, tendo semelhante qualificação. Se o meu marido ganhasse o mesmo que ganho, eu pagaria mais impostos que ele. Licença maternidade? Três meses e não voltar ao trabalho depois deles implica a demissão. O sistema não está concebido para mulheres que trabalham e são mães. Há poucas creches, caras e com filas de espera. Babás são igualmente impagáveis a um trabalhador normal. O aspecto positivo é que há oferta de trabalhos parciais, de até 20% (equivale a um dia). Começo a enxergar a Suíça menos “avançada” e considerar países como a Suécia, Noruega e até de certa forma, o meu Brasil, que julgava machista, como progressistas nestas questões.
A sociedade e o estado espera que mulheres procriem. Talvez os maridos desejem secreta ou diretamente que as mulheres se contentem com o papel de esposas e mães. Eles se encarregam de ganhar o pão. As próprias mulheres espalham o preconceito contra o seu sexo. E eu? Será que vou me contentar a simplesmente fazer compras, cozinhar e empurrar carrinho de bebê depois de tantos anos de boa educação e experiência? Ser mãe deve ser maravilhoso. Mas e todas as outras lutas que tive como estrangeira, para conseguir meu lugarzinho ao sol em terras de ninguém? Onde fica a naturalidade da minha criação que mulher é mãe, esposa e bem-sucedida no trabalho?
Por favor não me rotulem de feminista. Acredito que homem e mulher são seres diferentes, que agem, pensam e sentem diferente. Nao quero ser agressiva e mal-humorada no trabalho para poder mostrar que sou eficiente e trabalho tão bem quanto um homen. Tampouco quero deixar de me maquiar e enfeitar ao sair de casa. Sou uma mulher totalmente normal, uma mulher do meu tempo, lutando contra questões do passado, cujas em pleno século XXI, infelizmente, ainda são temas atuais.Cecília Zugaib, Zurique - Suíça
Gostaria de questionar, não sobre o conteúdo de e-mails que lotam as nossas contas, sempre botando pra baixo o atual governo brasileiro, seja ele qual for, mas questionar o porque pessoas gastam seu tempo em atitudes como esta.
Mas e quem o faz? Quanto recebe? Em reais, em euros ou em dólares? Admiro o ponto criativo, mas qual é a solução?
Que não me levem a mau, nao é uma crítica, como já disse admiro a criatividade, a pesquisa e o estar bem informado, mas gostaria tanto de receber e-mails com projetos sociais ou culturais, e-mails que proponham mudanças num âmbito maior do que as contas gastas pelo governo, pois temos problemas semelhantes também fora do Brasil.
“Allora”, faz um ano que moro na Itália, não voltei mais para o meu país neste tempo. Tenho contato com muitos amigos, familiares que estão lá. Sei que existem dificuldades econômicas, sociais e políticas, como existem no mundo inteiro. Aqui na Itália, por exemplo, também temos problemas de corrupção, problemas de políticos que dormem durante congressos no senado, com a monopolizaçao dos meios de comunicaçao, com a competiçao, com o lixo e a interminável luta pelo poder. Sendo assim, jamais direi que Italia, Suíça, Bélgica, Holanda ou qualquer país é melhor ou pior que o Brasil, ou seja, os problemas, cada qual na sua lavanderia, devem ser resolvidos de acordo, e neste acordo estão também as pessoas que insistem em criticar os pontos negativos e não gerar soluções. Então, pergunto para estas pessoas que investem o seu tempo e sua criatividade nestes e-mails, o que fazem além disso? Algo de prático para “o seu mundo”. Quero realmente saber! Porque como ja falei, nós aqui na Itália também contamos com inúmeros problemas. E como acredito que a “uniao faz a força”, creio que a união que faz essa força pode ser muito mais forte se é feita para o bem, para ressaltar os pontos bons de um governo, de um país, de uma família.
Portanto vocês, meus caro colegas, que dão o seu precioso tempo a estes tipos de e-mails e ao criadores e pesquisadores bem informados que acreditam que precisam abrir os olhos do mundo para esta sacanagem que rola, compartilhem conosco sobre seu trabalho, suas ações, seus planos com a comunidade, para que possamos juntos construir um mundo melhor, ou vocês acreditam que só porque vivo na Itália não me preocupo mais com a Floresta Amazônica? Nos também respiramos aqui! E acreditamos que cada um pode fazer e dar do seu melhor...
Domigo pela manhã é tempo de música brasileira aqui em casa, o que normalmente não escuto, mas domingo de manhã tenho sempre vontade de ouvir algo da minha terra e de preferência um sambinha de raiz. E esta manhã, ouvindo o saudoso Cartola me dei conta do quanto o mundo fervoroso e criativo das favelas se impõe como retrato da nossa arte com força absoluta e unânime aceitação. Abri a revista Piauí (obrigada Alice) e me deparei com uma propaganda do filme “Antonia”, por curiosidade fui no youtube e encontrei mais uma produção que me pareceu super interessante, novamente tendo a favela como cenário. No texto abaixo sobre o filme “Volver” de Almodóvar, Magda fala sobre a sociedade independente que tem a possibilidade de resolver todos os problemas sem sair de “casa”. Na favela é assim! Uma sociedade paralela que tem amparo e apoio no que é necessário. Os vizinhos conversam e não falam somente bom dia, ou como nós que muitas vezes torcemos para entrar sozinhos no elevador, sem ter qualquer ânsia de comunicação com o próximo. As cadeirinhas velhas ao lado da porta, onde as tias sentam para ver a vida passar, as figuras costumeiras nas janelas, o conhecimento da vida alheia e a novela que celebra em grande estilo estas comunidades. O número de favelas no Brasil ultrapassa 19 mil, isto reúne mais de 1,6 milhão de domicílios, onde a população tem cada vez mais que criar seu próprio sistema de sobrevivência, e como a união acontece com muito mais frequência quando passamos por dificuldades, na favela isto é mais do que comum. E a união faz as forças, e dentro destas, a força cultural! É claro que nem tudo são flores e boemia, tem o lado do tráfico, das dificuldades, a falta de escolaridade, da fome, da criminalidade e da falta de formação de valores, característica esta que é também facilmente encontrada fora das favelas, do norte ao sul do nosso país. Mas este é tema para um próximo papo, agora quero falar somente deste caldeirão criativo.
Na década de 20 já existia a preocupação com "o que era o Brasil", e a política facilitava este debate pois o tema estava na moda, com o modernismo e a semana de arte moderna de 1922, na qual artistas não queriam mais ter somente a referência européia nas artes, queriam sim, representar o Brasil! E isto tomaria muita força com a revolução de 30 com Getúlio Vargas e a definição deste Brasil que a gente conhece hoje. No momento em que a elite procurava o Brasil, ela foi até às escolas de samba, e foi recepcionada com a seguinte frase: -Vocês estão procurando brasileiros? Nós somos brasileiros e temos a capacidade para representar o Brasil!
O cantor Marcelo D2 falou numa entrevista que a zona sul do Rio foi uma das responsáveis pelo sucesso em massa de sua carreira. É verdade. A sociedade canta suas músicas sem sequer prestar atenção nas letras, carregadas de críticas constantes a esta que paga suas contas. E a classe “mediana” dança o funk carioca nos apartamentos de cobertura, festeja os filmes que tem a favela como cenário, celebra os estilistas que criam alta-costura com o reciclado, contrata belíssimas , “confiáveis” e limpinhas empregadas moradoras das favelas, pagam caríssimo num camarote para prestigiar as escolas de samba (muitas delas financiadas pelo tráfico) e consomem as músicas vindas de lá. Mais um exemplo disso, além da invenção do samba e da ascenção do pagode, é o cantor Seu Jorge, ex-companheiro dos menores assassinados na chacina da Candelária, chacina esta que foi brindada por muitos da sociedade carioca, a mesma que consome a cultura vinda da favela. Isto tudo sem falar em arquitetos do mundo inteiro que estudam esta bela expressão estética de urbanização. E tem também o “padrão de beleza da brasileira” tão procurado pelos gringos e alimentados pelo mercado interno. Bundas e seios fartos, quadril largo, longas pernas, a cor morena do “bronzeado natural”, e assim a sociedade branquinha enriquece os centros estéticos em busca deste padrão. Esta beleza que é facilmente encontrada em qualquer esquina das comunidades carentes. Nos dias de hoje a maioria das mulheres queriam ter sangue africano correndo em suas veias e a beleza da mistura estampada no seu corpo mesmo que o preconceito ainda seja forte em nosso país.
Antes a burguesia já sabia que era na senzala que tudo era mais mais divertido, haviam danças, músicas, risadas largas, comportamentos livres, festas, criatividade, paixão e sensualidade. Tudo isso continua existindo e cada vez mais forte, mas agora a senzala não existe mais, mas a pulsão criativa das comunidades carentes é o pano de fundo mais desejado e explorado pelos produtores da elite cultural. Portanto sentir-se brasileiro com estas referências, não é uma questão tão atual, pois a sociedade sempre quis ser favela sem sair de dentro dos apartamentos da Barra. Em grande estilo!
Tudo começou quando assisti ao filme do Almodóvar, Volver, que trata, entre outras coisas, do reencontro. Ao ver a Penélope Cruz cantando e chorando o reencontro percebi que algo estava faltando em minha vida, meu passado, cadê meu passado? Eu, uma pessoa super aberta, camaleoa, metida a „broad-minded“, quando vim morar no exterior, aprendi a língua, os costumes e hábitos deste país onde moro. Mas absorvi tanto esta cultura que nem pareço mais a mesma do passado. Claro que todo mundo muda. E mudanças podem ser boas. Mas ficou um vão entre o presente e o passado. E nessa crise de auto-identificação eu peguei o avião e fui para São Paulo, reencontrar meu passado. Revi lugares e pessoas que amo. Para meu consolo, esses 5 anos de separação com o meu passado, ou seja, o tempo em que não visitei minha Sampa, parece que nao existiram. Estava tudo lá, os amigos, a boa energia, aquele batimento cardíaco de São Paulo. Que alívio. E pela primeira vez na hora de vir embora quem chorou fui eu e não minha mãe e meus amigos. Foi um nó na garganta que me fez repensar muitas coisas. Nós, que moramos no exterior, devemos nos integrar, aprender a língua, trabalhar, viver de acordo com a sociedade do país onde estamos. Mas o ser humano tem que saber aonde ele pertence, tem que conhecer sua essência. Nunca se esqueça quem você é e o porquê você é assim. Tudo faz parte. Como meu amigo, o escritor Marcelo Madeira uma vez disse: „Sem identificaçao não há integração“.
Sobre o filme: Volver, filme de Pedro Almodóvar, trata do reencontro com o passado, da morte e dos casos mal resolvidos. O filme é uma pura homenagem as vizinhas e mostra uma sociedade interativa, onde as pessoas resolvem seus problemas entre si, sem o envolvimento do estado e da ordem. Os crimes não são contados para a polícia, os doentes são tratados em casa, nao vão para no hospital. Ou seja, Almodóvar mostra os antigos costumes dos vilarejos espanhóis, onde tudo funcionava e ainda funciona assim: o estado e a ordem impostas por ele são ignorados. Talvez uma solução para os problemas da sociedade moderna? Em Volver as mulheres, personagens sempre marcantes no filme de Almodóvar voltam a cena, já que em seu último filme “La Mala Educación” elas somente foram representadas pela figura de um travesti. E como sempre, Almodóvar mostra seu respeito as prostitutas que fazem parte da comunidade, nao são excluídas e sim são pessoas que têm uma vida normal e digna como todas as outras. Como deveria ser... Numa nova fase de Almodóvar , mais velho e amadurecido, o filme é uma nostalgia. Filmado na terra natal do cineasta e de Dom Quixote, La Mancha, a fotografia é maravilhosa. Mas não só as cenas exteriores, as interiores também sao lindíssimas. E Penélope Cruz, também mais madura, volta a fazer um papel que lhe cai bem melhor do que aqueles que estava fazendo em Hollywood. Vale a pena conferir!
Outro dia durante uma conversa com um amigo levei um puxão de orelha quando expressei meu desconhecimento da vaia ao Lula nos jogos Panamericanos no Rio. Ele foi categórico: - Thais, não vá se tornar essas pessoas que saem do Brasil e ficam alienadas e desinformadas do que acontece no próprio país. Isso me levou a refletir e concluir que a alienação não se desenvolve fora do país de origem e que a formação de cada um é construída na infância, adolescência e pelos eventos que se agregam a partir de interesses. Esta formação, que faz com que tenhamos certa "sensibilidade política", nos torna ideológicos, com vontade de fazer algo para mudar o mundo no qual vivemos. Este mundo delimita-se no universo do qual somos parte, seja ele no campo, no bairro da capital, na comunidade da igreja, no clube, na família, ou nos grupos de amigos. Quando surgem grandes idéias que ultrapassam os interesses individuais é possível perceber as mudanças em nossas vidas e principalmente em nossos discursos. No Brasil, se um cidadão possui uma renda que permite uma qualidade de vida, tudo está bem e ele está nessas condições, somente por mérito próprio. O país? o país está bem mesmo que seu vizinho esteja "numa pior". Mas a vida pela perspectiva do vizinho é outra: o país está mal, nada vai bem e a culpa é do governo!
O músico André Abujamra já cantou que o centro do universo é o nosso umbigo. Unido a este pensamento está meu amigo, citado no início deste, que defende a idéia de que em nosso país todos responsabilizam o governo por tudo porque, historicamente, depois da invasão dos portugueses, primeiro tivemos um governo e depois um povo.Isso realmente faz sentido quando pensamos na estrutura e demandas que surgem ao se formar um povo e de que forma vem as respostas. As reivindicações e conquistas da população que deveria ser a verdadeira condutora de seu país. Mas no Brasil não é assim. Nós, brasileiros no exterior, que já conseguimos naturalmente uma ampliação do olhar, deveríamos ser os primeiros a entender os problemas do nosso país com mais esclarecimentos e pontos de comparação, e chegar no BR com o lado crítico e bem informado que possa gerar consciência e soluções. Para isso devemos dedicar um pequeno tempo a esse nosso mundo, esse universo do qual somos parte, e nos tornar agentes de transformação, buscando informação na mídia alternativa, nos desligar um pouco dos grandes veículos da mídia brasileira que manipula com maestria até os que se julgam mais esclarecidos. Portanto: ouça, leia e veja os dois lados da informação antes de se tornar mais uma vez o dono da verdade equivocada! A vida é notícia e a notícia você tem que buscar!
Tudo isso que está aí no ar: malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro. Do meu dinheiro, do nosso dinheiro que reservamos duramente pra educar os meninos mais pobres que nós, pra cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais. Esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais. Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta a prova? Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem pra aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz. Meu coração tá no escuro. A luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e todos os justos que os precederam. 'Não roubarás!', 'Devolva o lápis do coleguinha', 'Esse apontador não é seu, minha filha'. Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar! Até habeas corpus preventiva, coisa da qual nunca tinha visto falar, sobre o qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará!
Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear! Mais honesta ainda eu vou ficar! Só de sacanagem! Dirão: 'Deixe de ser boba! Desde Cabral que aqui todo mundo rouba! E eu vou dizer: 'Não importa! Será esse o meu carnaval! Vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos.' Vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo, a gente consegue ser livre, ético e o escambal. Dirão: 'É inútil! Todo mundo aqui é corrupto desde o primeiro homem que veio de Portugal! 'E eu direi: 'Não admito! Minha esperança é imortal, ouviram? Imortal!'
Sei que não dá pra mudar o começo, mas, se a gente quiser, vai dar pra mudar o final!