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sexta-feira, 14 de março de 2008

Confissões de uma Fraulein



Tudo começou quando assisti ao filme do Almodóvar, Volver, que trata, entre outras coisas, do reencontro. Ao ver a Penélope Cruz cantando e chorando o reencontro percebi que algo estava faltando em minha vida, meu passado, cadê meu passado?
Eu, uma pessoa super aberta, camaleoa, metida a „broad-minded“, quando vim morar no exterior, aprendi a língua, os costumes e hábitos deste país onde moro. Mas absorvi tanto esta cultura que nem pareço mais a mesma do passado. Claro que todo mundo muda. E mudanças podem ser boas. Mas ficou um vão entre o presente e o passado.
E nessa crise de auto-identificação eu peguei o avião e fui para São Paulo, reencontrar meu passado. Revi lugares e pessoas que amo. Para meu consolo, esses 5 anos de separação com o meu passado, ou seja, o tempo em que não visitei minha Sampa, parece que nao existiram. Estava tudo lá, os amigos, a boa energia, aquele batimento cardíaco de São Paulo. Que alívio.
E pela primeira vez na hora de vir embora quem chorou fui eu e não minha mãe e meus amigos. Foi um nó na garganta que me fez repensar muitas coisas. Nós, que moramos no exterior, devemos nos integrar, aprender a língua, trabalhar, viver de acordo com a sociedade do país onde estamos. Mas o ser humano tem que saber aonde ele pertence, tem que conhecer sua essência. Nunca se esqueça quem você é e o porquê você é assim. Tudo faz parte. Como meu amigo, o escritor Marcelo Madeira uma vez disse: „Sem identificaçao não há integração“.

Sobre o filme: Volver, filme de Pedro Almodóvar, trata do reencontro com o passado, da morte e dos casos mal resolvidos. O filme é uma pura homenagem as vizinhas e mostra uma sociedade interativa, onde as pessoas resolvem seus problemas entre si, sem o envolvimento do estado e da ordem. Os crimes não são contados para a polícia, os doentes são tratados em casa, nao vão para no hospital. Ou seja, Almodóvar mostra os antigos costumes dos vilarejos espanhóis, onde tudo funcionava e ainda funciona assim: o estado e a ordem impostas por ele são ignorados. Talvez uma solução para os problemas da sociedade moderna?
Em Volver as mulheres, personagens sempre marcantes no filme de Almodóvar voltam a cena, já que em seu último filme “La Mala Educación” elas somente foram representadas pela figura de um travesti. E como sempre, Almodóvar mostra seu respeito as prostitutas que fazem parte da comunidade, nao são excluídas e sim são pessoas que têm uma vida normal e digna como todas as outras. Como deveria ser...
Numa nova fase de Almodóvar , mais velho e amadurecido, o filme é uma nostalgia. Filmado na terra natal do cineasta e de Dom Quixote, La Mancha, a fotografia é maravilhosa. Mas não só as cenas exteriores, as interiores também sao lindíssimas. E Penélope Cruz, também mais madura, volta a fazer um papel que lhe cai bem melhor do que aqueles que estava fazendo em Hollywood. Vale a pena conferir!


Magda Hammer - Zurique, Suíça




9 comentários:

maura disse...

Seu comentário foi perfeito, Magda. Esquecer quem já fomos ou de onde viemos, pode nos tornar estrangeiros até mesmo na nossa terra, na nossa vida. Boas energias pra vocês que fazem a revista. Bjo
Maura Ferrato - Brasil

Marcelo Candido Madeira disse...

Oba, Magda, legal a pensata. Eu há muito tempo esperava o Blog do Integra on line! Afinal em blogs não se derruba árvores! hehehe! E daqui a pouco cada celular vai ser um livrinho também! Parabéns pela iniciativa! E viva nós, os estrangeiros no planeta Terra. Afinal estamos de passagem nesta grande nave azul! bjs!

Centauro20 disse...

Realmente não podemos esquecer quem somos, nem de onde viemos. O Edilson morou 4 anos na Alemanha e disse que no dia em que chegou de volta, lhe pareceu que nunca tivesse saído daqui.
Eu também não estou mais na nossa terrinha, embora ainda no Brasil, mas rever os amigos e nossas raízes é também mostrar/sentir quem somos de verdade. Muito bom o seu texto !!!
ABS
Edgar Fabre

Anônimo disse...

Dinorá disse:
Olá Magda
Muito legal a iniciativa de criar a revista Íntegra.
Considero importante não abandonar nossas raízes e incentivar nos nossos filhos o desejo de buscar e conhecer suas raízes.

Sucesso! Parabéns!
Dinora

Anônimo disse...

OI Mibizinha, acabei de ler....showwwww , amei!! Gostei tb do da Cecilia e da Thais..como escrevem bem essas brasileiras!!! uauauau Congratulacoes!!! bjussssss

Fabiana

Anônimo disse...

Saudade! Será que a angustia humana não se dá porque o espirito também quer voltar pra casa, mas não sabe onde fica? Gostei do texto. Principalmente das partes reflexivas e confessionais. Meu conselho, admita mesmo, entregue o ouro, o textos vão ficar cada vez melhores e ouro não foi feito pra apodrecer no cofre. Abçomana.
Ferrari

Anônimo disse...

Oi, putz, adorei o que vc escreveu. Forte e intenso.
Vc é uma mulher de Almodovar com certeza.
Gugu

magdahammer@gmx.ch disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Magdão, muito legal seu texto.
É verdade, além do certo que é a morte,
todos temos algo em comum um passado.
Comum para todos e diferente para cada um,
mas um passado.
Ale