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domingo, 1 de junho de 2008

A ciência do palavrão

Queridas companheiras despatriadas
Toda merda tem o seu mais profundo sentido.
Vejam, não quero escandalizar-lhes com esta frase, com pouco fundamento nesse blog de questões sociais e culturais, nem tampouco fazer qualquer tipo de polêmica. O fato é que outro dia falando com a minha íntegra amiga Thais tive uma grande surpresa ao sair de sua íntegra boca a frase: "Tenho uma puta alergia desse pólen do caralho!"
Ela ainda se desculpou dizendo que estava passando por uma fase um pouco adolescente, mudou de assunto e perguntou se na Itália estava fazendo sol, eu respondi - "melhor não perguntar pelo sol aqui na Europa que ele logo se esconde, puta que o pariu!"
Vejam amigas, não sou o perfil de pessoa que o usa o palavrão para se defender, mas devo admitir que desde que me mudei para a Europa, escutá-lo me traz uma estranha sensação de saudade e também alívio, me sinto em casa. Sim, porque palavrão tem mais sentido na língua de origem. E eu fui despejando um balde fodido de palavras não toleráveis na nossa sociedade pudica e reprimida.
Mas a "ciência do palavrão" pode nos explicar e esclarecer muito da nossa necessidade física e emocional em aliviar a tensão dessa zona cerebral reprimida. Pesquisas recentes mostram que as palavras sujas nascem em um mundo a parte dentro do cérebro, enquanto a linguagem comum e o pensamento consciente ficam a cargo da parte mais sofisticada da massa cinzenta, o neocórtex. Os palavrões moram nos porões da cabeça. Mais exatamente no sistema límbico. É o fundo do cérebro, a parte que controla nossas emoções. Trata-se de uma zona primitiva: se o nosso neocórtex é mais avantajado que o dos outros mamíferos, o sistema límbico é bem parecido. Nossa parte animal fica lá.
Uns são contra o palavrão, admitindo o seu uso por outros somente em determinadas ocasiões. Cacilda Becker defendia-o no teatro: “Quando o palavrão vem dentro de um espetáculo de cultura e atende às necessidades indiscutíveis de esclarecimento do público - em todo o Brasil normalmente culto - faz parte da obra de arte e é absolutamente justificado. Condená-lo é uma atitude, se não hipócrita, ao menos ignorante”.
Oduvaldo Viana era totalmente favorável ao uso do palavrão no teatro, acrescentando, porém: "Não é qualquer um que consegue usá-lo bem; o seu emprego é uma arte”.
O escritor Gilberto Freyre disse: "No momento exato, sim, o palavrão é necessário.”Quase todos falam palavrão; quando não falam, pensam o palavrão!
Mas isso amigas, nao quer dizer que precisamos sair por aí dizendo palavrões, é só para ter consciência que quando a saudade apertar, sabemos aonde começar o nosso resgate cultural.
Aliás, antes que eu me esqueça: “tô com uma puta saudade do Brasil!”
E assim vai...Mas lhes digo uma última coisa:
To fodida mas to íntegra!
Luci Macedo, Milão - Itália

3 comentários:

Magda Brussi disse...

Esse texto ta demais! Ou devo dizer do caralho! hahaha

Thais Aguiar disse...

Eu quase censurei, claro, porque expõe aquela parte "underground" do meu cérebro que vem a tona num resgate cultural.
Mas daí lembrei que a censura acabou, então, já não posso mais brincar de ditadura...hummm
Afinal é um texto cultural, um bom texto!

Anônimo disse...

gente, onde vcs encontraram a autora do texto? Muito legal, catártico, enxuto, criativamente brasileiro ... ah, mas não posso deixar por menos ... e desejar, parodiando os antigos do teatro: merda procês, amei a revista!
bj
Miriam