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terça-feira, 15 de abril de 2008

Os temas pensantes de Sean Penn

Filmes são bons para várias coisas. Para rir, chorar, relaxar, matar o tempo, dias de chuva e também para pensar. Ah, adoro filmes que me façam pensar, que me tragam novas idéias ou que me façam mergulhar em minha alma. E um diretor que tem me feito pensar muito nos últimos tempos é Sean Penn. É, ele mesmo, aquele ator que antigamente era conhecido por ter sido o marido da Madonna, numa relação pra lá de turbulenta. Mas isso a gente deixa para as revistas de celebridades.
Apesar de ter essa má fama, Sean Penn mostrou-se capaz de realizar ótimos filmes e o que mais gosto neles são os temas. Ele escolhe histórias que nos fazem refletir sobre o sentido de nossas vidas.

Em „Vinte e um gramas", do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, ele protagoniza uma história que lança a discussão sobre a existência da alma. O fato do corpo ficar vinte e um gramas mais leve quando morremos não seria a prova da existência da alma? O vaticano está pensando no assunto.
Em outro filme, „A promessa" (2001), com Jack Nicholson no papel principal, Sean Penn baseia-se no livro de Friedrich Dürrenmatt, contando a história de um policial aposentado e sua obsessão em caçar um criminoso, pedófilo e assassino. No final, o protagonista não consegue capturar o criminoso, que morre num acidente de carro, sendo assim jamais descoberto e punido e ainda expondo a vítima, uma menina, a um grande perigo. A frustração é pura e única no final do filme: é como se uma pessoa idosa estivesse condenada à inércia e ao fracasso, não podendo fazer nada para mudar o destino das coisas. Não dá pra dormir depois de ver esse final. Ele é inaceitável, ele quase conseguiu capturar o cara, quase venceu, quase...

O filme que assisti na semana passada e que e me inspirou a escrever esse texto é "Na Natureza Selvagem" (Into the Wild), baseado numa história verídica e no bestseller literário de Jon Krakauer.
Depois de se graduar na Universidade de Emory em 1992, Christopher McCandless, estudante de topo e atleta, movido a uma desilusão familiar, decide largar tudo. Ele desfaz-se então de todos os seus bens materiais - documentos e dinheiro - e parte em direção ao Alasca.
Lembrei-me de uma cena da juventude, quando há muito tempo atrás, viajando com um grupo de amigos pela Bahia, eu joguei minha carteira no mar. Hahaha, eu juro! Tudo bem que cinco minutos depois fui procurá-la, desesperada, e por sorte, (ou azar?) a encontrei. Mas a sensação de liberdade foi muito boa, foram os cinco minutos mais livres de minha vida.
Acho que todo jovem que já colocou as mochilas nas costas e saiu por aí se identifica com o personagem principal do filme. Sem lenço nem documento, Christopher vai se virando por dois anos, trabalhando aqui e ali, vivendo dias intensos e encontrando uma série de personagens que dão forma e sentido à sua vida.

Vivemos num mundo extremamente consumista, perdemos totalmente a noção dos nossos valores interiores. Não conseguimos mais nos desapegar das coisas materiais. Things, things and things...
Na Natureza Selvagem é um manual de sobrevivência sem sobrevivência. O mocinho da história queria sobreviver com o mínimo possível. Quando ele chegou no Alasca estava totalmente despreparado. Isso era proposital.
Tenho lido várias críticas sobre pessoas que vêem o filme e dizem que ele foi tolo em não estar devidamente preparado para o Alasca. Mas será que não estava faltando o espírito de aventura nessas pessoas que têm essa opinião? Será que elas entenderam o objetivo do garoto? Temos sempre que viajar preparadíssimos, de mala e guarda-chuva? Temos que viver sempre cercados de coisas? Isso não atrapalha no desenvolvimento humano? Qual é o sentido de viver uma aventura? E se alguém quer mergulhar no selvagem, como sugere o título do livro e filme, como Christopher, isso não é permitido? Foi sua escolha, não foi?

Christopher era um bom menino, consciente e inteligente e o mundo precisa mais do que nunca de pessoas assim. Ele nos deu uma lição de desapego, de ser só por ser. Esse foi o sentido de sua viagem.
O filme ainda conta com fotografia e trilha sonora lindíssimas. Essa última elaborada pelo vocalista do Pearl Jam, Eddie Veder, cantando essa história, esse amargor, essa explosão de vida. Ai, a vida...

Magda Hammer - Zurique, Suiça

3 comentários:

ClaudiA disse...

Ola Magda...

Acho esse ator muito interessante.. no passado a vida dele foi muito turbulenta .. ou a Maddona era turbulenta demais para ele.. enfim... É um ator de grande talento e filmes com ele faz agente acreditar que sera de gradiosos suscessos!!
Abraços
Claudia America

Marcelo disse...

Magda, lendo seu artigo sobre Sean Penn. Duas coisas me vieram à cabeça: primeiro tb adoro Sean Penn, o cara é foda. Assista Indian Runner. É de 1991, e o cara já mostrou a que veio na direção.
Segundo: como sinto falta de pessoa sensiveis e inteligentes como voce para oxigenar minhas ideias.
Nao estou pessimista nao, mas o país passa por uma fase de emburrecimento total. Por isso te peço, escreva mais. Pois um leito assiduo, pelo menos, vc já tem.

beijos.
Marcelo

Alice disse...

Oi Magda!

Ah, também sou fã do Sean Penn! Assisti dia desses o "Mystic River"(2003). Dirigido pelo Clint Eastwood, ainda tem Tim Robbins (sensacional!) e Kevin Bacon (oh, carinha esquisito! não sei o pensar dele ainda...).
Sobre o marido da Madonna, adoro e recomendo o atual, o Guy Ritchie dos excitantes "Lock, Stock and Two Smoking Barrels" (1998) e "Snatch" (2005). Sobre a Madonna, ela tá na direção também, com "Filth and Wisdom". Será? Mas já vale a pena conferir a banda na qual ela se inspirou para essa estória, os divertidíssimos e inusitados da banda gypsy-punk-sei-la-o-que "Gogol Bordello".
Mais um link. Esse, indispensável. Sobre mochileiros, aventuras, desapego material e muita reflexão, não deixe de ler "O fio da navalha" de William Somerset Maugham. Leitura de cabeceira para toda a vida...
(Adorei seu texto! Me fez lembrar de várias coisas boas pra gente ver, ouvir, ler e pensar...)

beijos!
Alice