A Revista Íntegra, após cinco anos de publicações, chega ao fim.
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quarta-feira, 30 de março de 2011

Os pais suíços não sabem explicar aos filhos o que é Usina Nuclear

Saiu na TV suíça: os pais não sabem explicar aos filhos a catástrofe ocorrida no japão, as crianças perguntam, o que é Usina Nuclear? e ficam sem resposta, chegam até mesmo a perguntar o que é uma catástrofe? e os pais se enrubrecem sem jeito e não sabem nem mesmo o tom que devem usar para não assustarem as almas inocentes. Então, eu vou dar uma mãozinha:

- Alô Filhão! De onde é que você acha que vem a luz que você apaga e acende centenas de vezes ao dia? De onde vem toda a eletricidade que liga o seu aparelho de som, computador, video game e bugigangas eletrônicas?...da Usina Nuclear que produz energia elétrica. Quer que o papai leve você pra conhecer uma Usina Nuclear de perto? Vamos à Mühleberg, ou podemos visitar todos os cinco reatores nucleares existentes na Suíça. Cinco reatores que geram apenas cerca de 40% da eletricidade do país. Pois é. Com isso eu teria a chance de entrar no assunto das energias renováveis e começar a fazer a cabeça da criança pra pensar em soluções mais ecológicas pro nosso tão castigado planeta. Mas a maioria dos pais suíços não querem mudança nenhuma, a Usina Nuclear europeia é o máximo! E sem Usina Nuclear quem vai entreter meu filho, se a TV estiver desligada?

Marcelo Candido Madeira - Biel, Suíça

sábado, 27 de março de 2010

“As aventuras do Cometa Finório” na Pestalozzi

No mês de março, a Pestalozzi-Hardau realizou a primeira leitura para crianças de língua portuguesa de Zurique e região.
Nos dias 10 e 13 de março, mais de 240 crianças, pais e professores compareceram a Pestalozzi para assistir à leitura das “Aventuras do Cometa Finório” permeadas de brincadeiras, ilustrações e música ao vivo.
As atividades em torno das histórias do Cometa Finório são criadas pela dupla de animadores, o escritor e compositor Marcelo Madeira e a musicóloga Jolanda Giardiello. As canções são acompanhadas por percussão, saxofone, violão e canto. Segundo o autor, Marcelo Madeira, a escolha do tema foi “uma forma de tratar sobre questões mais universais, as estrelas, os cometas, tudo que rodeia a nossa casa, o planeta Terra. Não importa se falamos o português da África, do Brasil ou de Portugal, falamos o português que se fala no planeta Terra”.
O evento teve a presença de turmas das escolas de língua portuguesa ABEC, Escola Hardau, Escola Sihlfeld, escola Kern/ Hohl, escola Langdorf Frauenfeld, entre outras, atestando o interesse da comunidade lusófona por atividades do gênero para crianças dos 2 aos 9 anos.
E tudo indica que, se depender da criançada, o cometa Finório seguirá adiante com suas aventuras pelo cosmos em escolas e bibliotecas interessadas em promover o prazer da leitura às crianças de língua portuguesa na Suíça.

Colaboração de Ana Widmer, Zurique-Suíça

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

O ensino no século XXI: o papel do educador, uma reflexão - Jacqueline De Brida

A idéia deste artigo partiu da minha experiência com classes multiculturais e multiseriadas em Zurique e a consequente preocupação com a formação de nossos jovens e o resgate de valores neste mundo materialista globalizado.
As poucas linhas que aqui escrevo não têm a intenção de definir o que deva ser o ensino nestes novos tempos. Na verdade, gostaria de convidar você, leitor, a refletir sobre alguns aspectos que acredito sejam relevantes e portanto a tirar suas próprias conclusões, sendo você professor, pai ou alguém que simplesmente sinta-se engajado no papel de educador. Afinal, pais, professores e sociedade, num trabalho conjunto, deveriam ser responsáveis pela formação do indivíduo como um todo.
Se analisarmos a partir da perspectiva do ensino escolar, atualmente o sistema educacional impõe que as escolas sigam certas normas de acordo com parâmetros currículares nacionais. Há uma grande preocupação em se passar o máximo de informação possível a cada indivíduo que frequenta uma escola, visando prepará-lo para uma profissão, com maior enfoque em seu desenvolvimento intelectual.
Como educadora arrisco-me a dizer que deveria haver uma reformulação dos regulamentos educacionais. Ensinar só tem sentido e significado se interligado às experiências com o mundo real, com o conhecimento, o saber, com a ética e a responsabilidade social, com o outro e com nós mesmos, numa visão de educação integradora e formadora de caráter.
De uma perspectiva da educação familiar, em geral o que se observa hoje em dia é que os pais estão muito preocupados em gerar o maior conforto material possível para seus filhos, proporcionando-lhes o alimento, vestuário, entretenimento, enfim, acesso a tudo que se tem de mais moderno que se possa adquirir. Nota-se que pouco vem sendo investido nas relações pessoais e na formação dos valores das crianças e jovens. Os pais trabalham muito e não tem muito tempo para investir neste trabalho vital, talvez por esta razão acabem compensando com o material.
Em função das exigências da sociedade e de um mercado de trabalho altamente competitivo, pais e educadores acabam contribuindo para que os jovens se tornem competentes e objetivos. Resta, no entanto, a pergunta: Serão eles felizes? Ou, na verdade, jovens estressados e insensíveis?
Ao meu ver, nada há de errado em prover os jovens tanto com um desenvolvimento intelectual quanto com um conforto material. O que todavia me preocupa é o exagero e a prioridade dada a tais pontos, que se tornaram os mais importantes na formação do indivíduo.
Gostaria de sugerir aqui um triângulo entre o “Saber” o “Ter” e o “Ser”, o qual chamarei de desenvolvimento emocional de um indivíduo e que na minha opinião, muitas vezes, vem sendo esquecido nos contextos escola e lar.
Além das capacidades cognitivas e intelectuais, deveríamos também ajudar nossas crianças e jovens a desenvolverem suas capacidades sociais e afetivas, como a habilidade de compreender os outros, a maneira de aceitar, lidar e conviver com o outro; a capacidade de se relacionar consigo mesmo, de se autoconhecer, de administrar seus sentimentos e emoções em favor de seus projetos, ter auto-estima e auto-confiança por aquilo que se é.
Deveríamos estimulá-los a serem eles mesmos, ressaltando e ajudando-os a explorar seus próprios potenciais, que só a cada um pertencem e que fazem toda a diferença. Ajudá-los a sonhar, não a renunciar aos sonhos e sim torná-los realidade; transmitir valores importantes para a vida, a terem um maior comprometimento com a sociedade e levá-los, assim, a descobrirem que o que devem oferecer é o que são, além do que sabem e do que têm.
Enfim, este deveria ser o nosso papel no século XXI – a formação integral do ser humano, através de um trabalho conjunto das escolas e famílias, sendo educadores e pais exemplos bons e positivos a serem seguidos.
Foto: Crianças numa escola em Thalwil, 1995. (Keystone Archive)

Jacqueline De Brida, Zurique - Suíça

sábado, 6 de junho de 2009

"Para além de livros, planos e provas", Miriam Vizentini

Sinceramente, diz aí: o que você pensa de um professor ? Qual é o papel que ele deve desempenhar em sala de aula? Fora dela? E o que você espera da escola? Qual o real valor dessas “entidades”? Não, não estou pedindo as imagens idealizadas, as “expectativas de um mundo melhor nas mãos da escola” e sim as vivências, a experiência real.
Vamos lá, não é difícil, não ! Deixe aflorar suas certezas e dúvidas, mágoas, agradecimentos, frustrações, saudades, boas recordações, traumas...
Como professora, ultimamente, tenho feito essa pergunta a mim mesma também - e agora convido você a pensar ... vamos lá !
(... tempo para pensar na sua história ...)
Agora, acrescente à sua reflexão a seguinte situação: este professor tem em sua sala de aula, nos subúrbios de uma grande cidade, alunos provenientes de diferentes classes sociais.
Coloque mais um elemento, por favor: esses jovens têm origens diversas, culturalmente falando – idioma, costumes, valores, religião, crenças - além de suas diferentes expectativas em relação à escola, incluindo medos, dúvidas, indiferença, raiva, desinteresse, descrença ...
Ah sim, tudo isso na ebulição da adolescência, com seus questionamentos sobre tudo, sua indisciplina, seus problemas de aprendizagem ...
Depois dessa reflexão, assista ao filme: La classe – entre les murs (The class / Entre os muros da escola - Palma de Ouro no Festival de Cannes 2008). Digo depois de refletir porque, assim, o efeito será bem mais interessante.
Não se trata exatamente de um documentário, mas também não deixa de sê-lo parcialmente, uma vez que os atores representam a si mesmos, neste trabalho do diretor francês Laurent Cantet, baseado no livro “semiautobiográfico” do professor François Bégaudeau – que além de representar François Marin, o professor, colabora no roteiro ao lado de Cantent e de Robin Campillo.
O professor da tela aparece bem intencionado, mas completamente perdido. Seu bem-estruturado programa a ser cumprido, seus pressupostos educacionais arraigados, suas expectativas quanto a seu papel vão caindo por terra e assistimos a um desmoronar de mitos. O que para ele é diálogo aberto, para os alunos cheira a obrigação. Ele oscila, sem limites, entre o ser compreensivo e autoritário. As informações, o conhecimento por ele considerado como “essencial” é algo quase hermético ao entendimento dos jovens - ironicamente estão numa classe de língua e literatura francesa, onde o idioma está longe de ser o elemento facilitador da comunicação, mas passa a ser o ponto de discórdia e distanciamento, entre os dois lados de um verdadeiro front.
E seguimos as reuniões de professores perplexos diante de situações incômodas e problemas com seus alunos, as discussões sem encontrar saídas para os problemas apresentados, seus conflitos e frustrações, sua escancarada condição de humanidade (caem quaisquer possíveis posições de “endeusamento”). Seguem-se também alguns acontecimentos envolvendo pais quase inatingíveis, enfim, tudo o que se pode observar, em maior ou menor intensidade, nas escolas do nosso mundo “globalizado”, a mesma problemática, esteja a classe na periferia de Paris, Zurique, Nova York, Roma, ou no eixo Rio-São Paulo.
Saímos do cinema com a certeza de que a escola, nos moldes como está estruturada, de certa forma agoniza, despe-se de suas certezas.
E é aí que reside o melhor do filme – e o diferencia de filmes já realizados envolvendo este mesmo tema (“professor x classe difícil”): na tomada de consciência da dificuldade de lidar com todas essas diferenças dentro da escola. Fica clara a atual incapacidade de professores - e pais - de gerenciar tantas variáveis. Nitidamente vê-se que é preciso reformular o que se acredita ser o trabalho educacional, os regulamentos, a organização, os pressupostos teóricos, enfim repensar a escola para a nova realidade – e fazê-la ir além dos livros, programas e provas.
O desafio de trabalhar com crianças e jovens em classes ditas multiculturais e de periferia é imenso. Tenho acompanhado de perto a batalha diária de vários bem-intencionados professores suíços de Zurique, na busca de levar suas turmas a se harmonizar aos moldes vigentes e percebo como muitas vezes sentem-se desorientados. Tenta-se aliviar algumas tensões ao buscar os professores de língua e cultura materna como mediadores culturais, para explicar aos alunos as regras da escola e o que se espera deles, para esclarecer as possíveis diferenças de ensino e nomenclatura (por exemplo, na matemática), orientar os pais que não dominam o idioma a entender as expectativas da escola quanto ao papel dos pais e vice-versa, procurando dar um pouco mais de segurança nos primeiros meses de escola a aluno, professor e pais. Despende-se muita energia para algum resultado, muitas vezes, não se evita a frustração de todos – mas já é um começo.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Nova Zelândia oferece bolsas para Mestrado e Doutorado

*Nova Zelândia oferece bolsas para Mestrado e Doutorado * Duas são exclusivas para brasileiros. Inscrições abertas*
Por meio do programa *New Zealand Development Scholarships - Open*, a agência para o Desenvolvimento Internacional da Nova Zelândia oferece, anualmente, bolsas de pós-graduação para estudantes da América Latina. Para o ano acadêmico de 2010 serão oferecidas duas bolsas de Mestrado ou Doutorado exclusivamente a brasileiros. Interessados podem se inscrever a partir desta segunda-feira, 1º de dezembro. O prazo se estende até* 30 deabril de 2009*.
Além de ter nível de formação suficiente para ingressar na pós-graduação, oscandidatos deverão comprovar proficiência no idioma inglês mediante o resultado do IELTS (mínimo de 6,5 pontos) ou do TOEFL (mínimo de 575pontos). Os testes devem ter sido realizados há, no máximo, dois anos da data da candidatura.
O processo seletivo dará prioridade a estudantes dispostos a realizar estudos em áreas ligadas à boa governança. Os projetos podem abrangem os seguintes temas: desenvolvimento, economia, finanças, estudos relacionados ao gênero, administração de recursos humanos ou desenvolvimento, administração de informação, direito internacional, direito comparativo, ciência política, administração pública, administração de projetos, pesquisa e demografia social, política social, estudos indígenas, estatísticas/monitoria e avaliação.
Os aprovados recebem bolsas para cobrir os custos com a instituição de ensino. O governo da Nova Zelândia oferece, ainda, passagens aéreas emclasse econômica de ida e volta e subsídios para despesas diárias e gastoscom acomodação.
*Inscrições*
Para participar do processo seletivo de 2009, referente ao ano acadêmico de 2010, é preciso encaminhar os formulários de inscrição, com toda a documentação exigida, para a Embaixada da Nova Zelândia. As fichas estão disponíveis no órgão representativo do país neozelandês no Brasil. Mais informações podem ser obtidas no seguinte endereço:*Heloísia Fontes**Embaixada da Nova Zelândia SHIS QI09, conj.16, casa 0171625-160 Brasília - DFBRASIL. Fone: (61) 3248-9900Informações: http://www.novazelandia.org.br/*

domingo, 28 de setembro de 2008

Carta à revista Veja

"Como educadora, historiadora, ex-professora da PUC e da Cátedra Paulo Freire e viúva do maior educador brasileiro PAULO FREIRE -- e um dos maiores de toda a história da humanidade --, quero registrar minha mais profunda indignação e repúdio ao tipo de jornalismo, que, a cada semana a revista VEJA oferece às pessoas ingênuas ou mal intencionadas de nosso país. Não a leio por princípio, mas ouço comentários sobre sua postura danosa através do jornalismo crítico. Não proclama sua opção em favor dos poderosos e endinheirados da direita, mas , camufladamente, age em nome do reacionarismo desta.
Esta vem sendo a constante desta revista desde longa data: enodoar pessoas as quais todos nós brasileiros deveríamos nos orgulhar. Paulo, que dedicou seus 75 anos de vida lutando por um Brasil melhor, mais bonito e mais justo, não é o único alvo deles. Nem esta é a primeira vez que o atacam. Quando da morte de meu marido, em 1997, o obituário da revista em questão não lamentou a sua morte, como fizeram todos os outros órgãos da imprensa escrita, falada e televisiva do mundo, apenas reproduziu parte de críticas anteriores a ele feitas.
A matéria publicada no n. 2074, de 20/08/08, conta, lamentavelmente com o apoio do filósofo Roberto Romano que escreve sobre ética, certamente em favor da ética do mercado, contra a ética da vida criada por Paulo. Esta não é, aliás, sua primeira investida sobre alguém que é conhecido no mundo por sua conduta ética verdadeiramente humanista.
Inadmissivelmente, a matéria é elaborada por duas mulheres, que, certamente para se sentirem e serem parceiras do 'filósofo' e aceitas pelos neoliberais desvirtuam o papel do feminino na sociedade brasileira atual. Com linguagem grosseira, rasteira e irresponsável, elas se filiam à mesma linha de opção política do primeiro, falam em favor da ética do mercado, que tem como premissa miserabilizar os mais pobres e os mais fracos do mundo, embora para desgosto deles, estamos conseguindo, no Brasil, superar esse sonho macabro reacionário.

Superação realizada não só pela política federal de extinção da pobreza, mas , sobretudo pelo trabalho de meu marido – na qual esta política de distribuição da renda se baseou - que demonstrou ao mundo que todos e todas somos sujeitos da história e não apenas objeto dela. Nas 12 páginas, nas quais proliferam um civismo às avessas e a má apreensão da realidade, os participantes e as autoras da matéria dão continuidade às práticas autoritárias, fascistas, retrógradas da cata às bruxas dos anos 50 e da ótica de subversão encontrada em todo ato humanista no nefasto período da Ditadura Militar.
Para satisfazer parte da elite inescrupulosa e de uma classe média brasileira medíocre que tem a Veja como seu 'Norte' e 'Bíblia', esta matéria revela quase tão somente temerem as idéias de um homem humilde, que conheceu a fome dos nordestinos, e que na sua altivez e dignidade restaurou a esperança no Brasil. Apavorada com o que Paulo plantou, com sacrifício e inteligência, a Veja quer torná-lo insignificante e os e as que a fazem vendendo a sua força de trabalho, pensam que podem a qualquer custo, eliminar do espaço escolar o que há de mais importante na educação das crianças, jovens e adultos: o pensar e a formação da cidadania de todas as pessoas de nosso país, independentemente de sua classe social, etnia, gênero, idade ou religião.
Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de concluir que os pais, alunos e educadores escutaram a voz de Paulo, a validando e praticando. Portanto, a sociedade brasileira está no caminho certo para a construção da autêntica democracia. Querendo diminuí-lo e ofendê-lo, contraditoriamente a revista Veja nos dá o direito de proclamar que Paulo Freire Vive!

São Paulo, 11 de setembro de 2008
"Ana Maria Araújo Freire"

Destaques do jornalista Pedro Alexandre Sanches
Ilustração de Maringoni, na Agência Carta Maior

domingo, 25 de novembro de 2007

Crianças interculturais



Nesta entrevista abordamos alguns aspectos sobre a aprendizagem e alfabetização dos filhos de imigrantes que, desde que nascem, são confrontados com mais de um idioma. Para esclarecer algumas dúvidas o Fanzine Íntegra conversou com Arlete Baumann, professora com formação em Letras/Tradução–Intérprete, presidente da Associação Brasileira de Educação e Cultura na Suíça e principalmente mãe.

FI: Os filhos de imigrantes são confrontados desde cedo com pelo menos “duas línguas maternas”. Primeiro então, qual seria do ponto de vista de aprendizagem a língua materna de uma criança filha de imigrante? Aquela que ela aprende em casa com os pais ou a que será desenvolvida na vida escolar?
AB: Partindo do princípio de que a língua materna é aquela na qual o indivíduo se sente seguro para expressar suas emoções, sentimentos e necessidades, pode-se dizer que, talvez, durante os primeiros anos de vida a língua materna da criança seja a primeira que aprendeu com os pais e que, a partir de certa idade ela passe a dominar tão bem a língua que o cerca, que se pode referir a duas (ou mais) línguas maternas. É possível que o domínio e a fluência se desenvolvam paralelamente nas duas línguas, ou não.


FI: No caso das crianças aqui na Suíça-alemã, em que um dos pais usa o português, mas o outro fala o suíço-alemão e, na escola, ela é confrontada ainda com o alemão alto. Como se dá esse processo de aprendizagem que para o adulto já não é tão simples?
AB: Via de regra as crianças aprendem com mais facilidade do que os adultos, principalmente se têm um ambiente estimulante em casa. Ela repete o que ouve, sem se preocupar com erros de gramática ou sintaxe; a criança em geral é desinibida. Claro que se deve considerar também a aptidão de cada criança, como indivíduo. Há aqueles que são melhores em línguas do que em matemática e vice versa!

FI: A criança consegue fazer bem a distinção de situações e saber quando usar um idioma ou o outro?
AB: A criança vive a experiência de ser bilíngüe de forma muito natural. Ela sabe perfeitamente que língua falar e com quem! O que se deve evitar são situações embaraçosas em que a criança se envergonhe e fique inibida, como por exemplo, em visita à família no país de origem a insistência para que a criança fale alemão/português perante os tios, avós, só para mostrar que sabe: “olha, gente, ele fala alemão(ou português), que gracinha! Fala aí pro titio ver!”


FI: Qual seria a idade ideal para uma criança começar a freqüentar aulas de português?
AB: Em minha opinião a idade ideal para começar a freqüentar aulas de português é entre quatro e cinco anos, isto é, na fase do jardim de infância (Kindergarten). Nesta fase da vida, a criança vai fi xar o vocabulário básico. Através de atividades lúdicas, de contos, canções, rituais e festas populares, a criança vai desenvolver o vocabulário das emoções, dos sentimentos, da fantasia (o futuro da literatura!). Esta fase inclui os dois anos de Jardim e o primeiro ano do estudo fundamental - o que equivaleria à Educação Infantil.


FI: Finalmente, qual é o papel de pais e professores nesse processo de aprendizagem multicultural?
AB: Os pais e professores têm um papel fundamental para o bom andamento da aprendizagem. Principalmente para a aprendizagem do português, que é nossa língua materna, pois estamos “longe da fonte”. Não temos toda a influência do meio ambiente. Se quisermos dar este presente aos nossos fi lhos, devemos nos esforçar e atentar para que eles tenham prazer em aprender nossa língua. Aqui, alguns pontos que acho muito importantes:
• Manter um ambiente estimulante em casa. Ter sempre livros, CDs, filmes em português ao alcance das crianças.
• Matricular as crianças num curso de língua e cultura maternas (Kurse in heimatlicher Sprache und Kultur – HSK. O contato da HSK no cantão de Zurique é: www.vsa.zh.ch
• Procurar o contato com os professores dos fi lhos, manter- se informado do que se passa na escola, interessar-se pelas atividades escolares e culturais
• E finalmente: Estimular, sim. Obrigar, jamais!!

ABEC - Associação Brasileira de Educação e Cultura
Tel: 052 203 1017

www.abec.ch