A Revista Íntegra, após cinco anos de publicações, chega ao fim.
Convidamos você a conferir esta última edição. Saiba mais...
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Rio que mora no mar - Dona Maria

Há nesta nova tribo mulheres de quadris enormes, largos, imensos, os seios acompanham e a fartura de carnes vaza pelos poucos panos. Há pouca maquiagem e muita fantasia. Há poucos olhos puxados e muita pele escura. Há pouca roupa cobrindo os viventes. Há sempre alguém por perto, muito perto, esbarrando, se esfregando, proximidade impensável em terras de Nossa Senhora da Luz. Há sempre um porra, caralho, cacete emendando os parágrafos. Mas nunca vi ninguém costurando frases com buceta, xoxota, reguinho. Engraçado, não acha? Porque será que só as “coisas dos homens” prestam para se fazer de vírgula, exclamação e ponto final? Há ônibus brotando de todos os lados, aos meus olhos ainda estrangeiros, sem rumo, sem parada, sem nome, sem ordem, sem pista, tenho sempre a impressão que assim só podem conduzir a destino incerto. Há buzinas e xingamentos em desarmonia. Há desalinho. Há destempero. Há muita gente nanica, sim, na rua, nas calçadas, nos guichês, nas filas, nas portas, nos ônibus, em todos os cantos, os de pouca estatura me fazem só mais uma. Há gente feia brotando em cada fresta, cada esquina, cada balcão, cada semáforo, cada meio-fio, cada curva insinuante que dá para o mar.

Eneida

"Tomem cuidado, ou vocês vão perder os "bagos" e vão colocar duas cebolas no lugar!" Era Eneida, furiosa, orientando os filhos adolescentes.
O marido era um calhorda que transava com outras mulheres, sem o mínimo de precaução. Os "bagos" enormes, inchados, faziam uma protuberância nas calças, e ela, que de "fadinha dos bosques" não tinha nada, arquitetou um plano: há pouco tempo chegados de outra cidade, alugaram uma casa velha na rua Dr. Faivre (perto do Hospital de Clínicas), os dormitórios no andar superior, banheiro ao lado, dois janelões descortinavam a rua e, lá embaixo, muitas roseiras. Eneida trancou um dos janelões e a porta de saída do quarto.
O marido saiu do banho, pelado, atirou a toalha molhada em cima da cama. Foi neste momento que ela com toda raiva acertou-lhe com uma tranca e o empurrou janela fora. E ele caiu pelado em cima das roseiras.
Não. Ele não morreu. Tampouco aprendeu a lição.
Margarita Wasserman - Curitiba, Brasil

17 de nov de 2010

terça-feira, 6 de março de 2012

Medo da eternidade - Clarice Lispector


Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

“O mato tomava conta do meu abandono. A língua era torta. Verbos sumiam no fogo.”

O que pulou do 4º andar. O que ateou fogo ao corpo na frente da amada. O que retalhou os braços. O que bebeu e bateu até cair. Os tiros na madrugada. A catita escapulindo da ratoeira. O morcego preso no banheiro. A galinha que, na ilusão do vôo, se enforcou na cerca. Os cachorros babando de raiva e fome. O terçado. O vinte e dois. O trinta e oito. Estilhaços. Geada e exílio na beira do poço. Água fervendo tatuando o peito e engelhando a alma. Delírios de astronauta. Partilha adiada. Caatinga, terra vermelha, tabatinga, cerrado, mesquinharias. Pântano. Súbito, olhos abertos. Incêndios?! Não, tolinha! Roteiro de bestagens de tarja preta.


(A)mordaça.

Dona Maria, Curitiba - Brasil

Ilustração: Dominique Fung

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O Brasil em minhas mãos


Morar na Europa não é facil, tem as suas vantagens e desvantagens.
Quando vejo o "estado" das minhas mãos, penso que morar no Brasil, é que tem as suas vantagens...Mas tudo bem, estou fora do Brasil há mais de 5 anos e decidi que tenho que me adaptar à realidade e a minha realidade são "AS MANICURES EUROPÉIAS".

Partem já do principio de que não se pode mudar o que esta alí com uma função, estou falando da cutícula.
Enfim aqui elas não gostam de tirar a cutícula.
Bom, eu ja tinha feito as mãos uma vez aqui, e explico era uma situação de emergência porque era para o dia do meu casamento e nessas horas não se pensa em dinheiro, paguei 20 euros (sim, vinte euros, 60 reais, sessenta!!) e ficou até que bom. Sim, porque além da "qualidade" ser horrível, custa muito caro.

Dessa vez tomei coragem e fui no salão que tem embaixo da minha casa, também porque vi que o preço e não estava mal (7 E). Cheguei e fui logo perguntando se ela tirava a cutícula, errei, ela não gostou da pergunta e já ficou irritada e então pensei -"Esta não só vai tirar a cutícula, como também um pedaço do dedo"... Mas como eu estava decidida e com muita paciência, esperei a minha vez.

Então ela começou, pegou um baldinho e o cortador (sabe Deus quando foi esterelizado) e com uma velocidade record empurrou a cutícula e a tirou. Foi tudo em 5 minutos e eu não falei nada porque pensei:- vai ver que esta é uma técnica e depois fará os retoques, não pode ser só isso, é quase igual a antes! Mas era só isso e ela me perguntou se eu ja tinha escolhido o esmalte.

ESMALTE??

-Mais qual? pensei. Tinha 3 ou 4 e todos duros e no finzinho. Bom, escolhi um clarinho porque tive medo do que poderia ser um vermelho.Ela passou (sempre tudo muito rapidinho) e tirou os cantinhos com a sua unha do polegar, quando ela disse "é finito ".

Meu sangue brasileiro falou mais alto e rodei a baiana. Perguntei se realmente ela tinha acabado, se era "isso" o que ela chama de manicure, aonde ela tinha aprendido fazer assim tão mal e se sinceramente olhando as minhas mãos ela achava que era um "trabalho" decente!

Ela respondeu com muito ódio no olhar que sim, que achava um bom trabalho e que se eu queria melhor, era para voltar para o meu país e fazer com uma manicure do meu país.

Depois mandei ela para "aquele país ", fiz ameaças dizendo que o meu marido era iraquiano e que estamos todos muito decepcionados com a Itália e que precisamos "desabafar" de algum modo.

Fiz varios tipos de ameaças, peguei a acetona e passei nas unhas (ardeu, ela tirou bifinhos. -italiana maledetta!).

Depois fui embora e no caminho pensei nas manicures do meu país... Pensei no salão da D. Iraci, o quanto era bom chegar alí e esperar a vez tomando um cafezinho e lendo a revista Caras e depois... a massagem nas mãos, nos pés... ah, vida de rainha!!!!

Todas as fofocas da novela ou quando esauridas, a vida de cada uma, os filhos, as últimas técnicas de manicure...

Oh, Brasil amado de gente sofrida e feliz e de mulheres com as mãos mais bem feitas do mundo!!!

Saudades...

de ter o Brasil em minhas mãos!


Luci Macedo , Milão - Italia

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Brigando com as Panelas


Segunda- feira, dez horas da manhã. Hora de começar o almoço. Abro a porta do armário e, ao retirar uma panela ouço-a reclamar:
“De novo?”
“É.” Respondo.
“Mas você não me dá sossego. Puxa vida...”
“Mas está na hora de começar o almoço.”
“E eu é que vou ter de agüentar o fogo na minha bunda.”
“Não me diga que você não gosta de sentir o perfume gostoso da comida...”
Descasco algumas batatas, encho a panela de água e um pouco de sal.
Dez minutos depois está começando a ferver. Espero mais uns minutos e espeto as batatas com um garfo grande...
“Ai! Sua malvada. Você arranhou a minha barriga!”
“Desculpe. Vou cuidar”.
Sobrou um pouco de água. Retiro quase tudo e reservo um pouco.
Passo a amassar com outro garfo e a panela grita e chora: “Você está riscando a minha barriga. Ai dói muito!”
“Mas será possível que você esteja tão “fresca. Tão delicada? Saco!”
Passo o purê para uma tigela e coloco a panela para lavar na máquina de lavar louça. Novamente escuto-a gritar: “Não quero ser lavada aqui! A água quente vai me queimar.“
“Mas o que você prefere?”
“Quero que você mesma me lave com uma esponja bem macia e água fria.”
Tudo imaginação minha...

Conto de Margarita Wasserman

segunda-feira, 18 de abril de 2011

The other wedding

Em Alderley Edge futebol é muito mais importante do que família real. Sendo assim, o casamento de Kate e William não tem tanta ênfase assim como em Londres, por exemplo. Ainda bem, assim não tenho que topar com aquelas lojinhas cheias de quinquilharias com a imagem dos noivos. A comemoração aqui é mais discreta. Na escola de meus filhos, as professoras tiveram um ideia muito legal. Fizeram uma competição entre as crianças que deveriam criar chapéus com o tema do casamento real. O convite da celebração estimulava: seja patriótico, controverso, questionador e/ou engraçado na criação do seu chapéu. Então foi muito divertido. Cada criança tinha literalmente uma ideia na cabeça. Haviam chapéus com bandeiras, capacetes de guerra decorados, o chapéu dos guardas reais do Buckingham Palace, chapéu bolo de casamento, etc. A comemoração começou com dois noivinhos (lindos!), um padre e testemunhas. Depois cantaram algumas canções e o hino, que eu até arrisquei já que tinha a letra em minha mãos. O chapéu vencedor foi um elmo (capacete de armadura) ridiculamente pesado e desproporcional na cabeça da criança. Feito de papelão e enfeitado de papel alumínio, era coberto de beijos e cores da bandeira do Reino Unido. Léon causou muitos risos com seu chapéu: aproveitando-se da histórica frase ‘Keep calm and carry on’, criamos o slogan ‘Keep married and carry on’. As professoras tinham todas uma coroa infantil e todas com roupas da cor da bandeira. Hilário. Agora deixa eu ir porque hoje tem jogo do Manu contra o Man city. Até eu...


Magda Hammer - Alderley Edge, Inglaterra

domingo, 20 de março de 2011

Maria Chuteira

Maria se mudara para o povoado havia alguns dias. A região era famosa por ser o lar de vários jogadores de futebol dos times locais. Como em sua opinião os ingleses “andavam na contramão” , ela não dirigia na Inglaterra. Então vivia a mercê de táxis e taxistas bem desbocados. O primeiro taxista em Alderley Edge a gente nunca esquece. Pelo menos isso foi o que aconteceu com Maria. Ao sair do mercado Maria acenou para o táxi. Ele parou e Maria, abarrotada de sacolas, entrou no carro. Disse onde morava e sentiu os olhos do motorista mudarem de cor. Ele repetiu o nome do condomínio com um ar de uauuuu e pelo retrovisor mediu Maria das cabeças aos pés:

- Sunset? Maria, um pouco constrangida, respondeu que sim. Parecia que um interrogatório começaria dentro daquele Volkswagen.

- Onde os jogadores de futebol moram? O sorriso amarelo de Maria não poderia ser maior:

- Sim, senhor, lá mesmo.

- Claro, madame! O “madame” para Maria era uma coisa nova, não tinha vocação para aquelas coisas. E na voz daquele motorista soou suspeito, como se ele tivesse descoberto alguma charada.


- Pra que time o seu marido joga?


- Time? Marido? A moça fica pensando na pergunta, achando-a um tanto filosófica. Ah, time de futebol, claro!

- Nenhum. O taxista fez um bico. Parecia que iria dar uma bronca na moça. Como não? Ela morava naquele endereço e o marido não é jogador de futebol? A moça pra melhorar o clima arrisca:

- Mas de quarta ele joga com o pessoal lá da firma.

- Então, a senhora não é esposa de jogador de futebol? A moça tentou se imaginar do lado de um tipo másculo, forte, peito tanquinho, o moreno do pedaço. Depois pensou nas desvantagens: e se o jogador fosse daqueles cheio de amantes, gostasse de carros tipo-lancha para aparecer, os paparazzi na cola. Negou sem arrependimento:

segunda-feira, 7 de março de 2011

Pó

“Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentido que não pertencia a nada e a ninguém.”

Os dias parecem todos engatilhados, uma roleta-russa sem fim. Muito difícil usar sutiã, roupa, cinto, sapato, dizer bom dia e não babar. Rotina. Sacrifício não arcar os ombros, manter os olhos abertos e produzir. Janelas e reminiscências. Ele foi embora. Ela foi embora. Desconhecem o paradeiro um do outro, na mala um bocado de palavras e sensações intensas. Talvez, já uma senhora, fosse aconselhável se assentar comportada em alguma cidade pacata, economizar para a casa própria e se contentar com a existência. Um homem qualquer, um trabalho qualquer, a vida protocolar. Manhãs, tardes e noites. Coluna ereta. Ajuizado seria empacotar os desejos e despachá-los para lugar desconhecido, mergulhar na realidade dos dias, esquecer fugas nas madrugadas, deixar de furtar poesias, nada de cobiçar as frases alheias, o mais importante: atar a alma ao mundo possível e viver dentro de um único compasso. No pão nosso de cada dia a nítida impressão de que qualquer dia alguém vai girar a cabeça, vomitar gosma verde e engatinhar pelo teto, nada que a assuste, só mais um acontecimento, só mais um telefonema: por favor, venham tirar uma desgraça que se pendurou no teto. Quanto tempo até declarar rendição? Perdeu todas as horas: a de levantar, a de fazer o café, a de tomar banho, a de procurar um escorredor para o arroz, a de achar uma panela do tamanho certo, a de colocar roupa na máquina, a de por ordem na vida, a de tirar passaporte para a outra margem. Ao invés disso desligou o despertador, dissimulou culpas, heresias, medos e dormiu profundamente.


Dona Maria - Rio de Janeiro, Brasil
Do blog rodadefiar

sábado, 5 de março de 2011

Carcaça de Mulher

Sentada no bonde, observo pela janela cinco mulheres, desconhecidas, lado a lado. Feições parecidas. Cinco mulheres diferentes e uma só expressão. Indescritível. Me vi refletida como num espelho, no estereótipo do "humano", dentro da carcaça de mulher. Será que é assim? Todos pensam na consciência de ser partícula e ser igual? Igual no trivial, no cotidiano, na rotina, nas buscas. Pitoresco. Este no sentido original, pois não há ser humano igual. Mentira! Todos semelhantes somos! No pensar, no agir. Quem nunca pensou na morte. A sua e a dos seus. Quem nunca fugiu ou encarou o pensar na vida. A sua e a dos seus.
Se ver refletida na história alheia, desejar ser o terceiro, cobiçar a vida ao lado. Sem qualquer referência ao material. Digo a cobiça à vivacidade e à melancolia. Já desejei muito mais melancolia, já tentei fugir da alegria e do sorriso de bom dia. Já me orgulhei de ser anônimo e assim me enterrar num livro que traz a história de um terceiro. E no desejo da melancolia, a música é sempre a melhor companheira. Só não jogo os CDs de samba escada abaixo pois posso precisar deles na necessidade do sorriso insosso de bom dia. Então eles permanecem lá, na prateleira, lado a lado - como as cinco mulheres - junto da coleção da Lhasa, Nick Drake e This Mortal Coil!


Thaís Aguiar- Zurique, Suíça

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Comemorando 105 anos – ou: uma ode aos anônimos - Miriam

Minha avó completou 105 anos em completo anonimato, numa casinha de vila na efervescente cidade de São Paulo. Não teve foto em jornal, nem políticos levando abraços, nem repórteres querendo saber como ela pôde ter (sobre)vivido tantos anos em meio a tantas mudanças econômicas, políticas e sociais assolando a vida - neste caso, a dos brasileiros – e tão lúcida ainda (tem a melhor memória da família). O mundo não se interessa pelos anônimos, felizes ou infelizes. Ainda bem!

Minha avó completou 105 anos: parabéns para as filhas, octogenárias, pela dedicação integral, razão pela qual ela ainda pode estar nesta vida, lúcida, mimada, querida!
Há pessoas que dedicam sua vida a grandes obras, grandes feitos. Serão lembrados para sempre por suas canções, suas telas, seus escritos, suas atuações, seus ensinamentos, seus edifícios, suas guerras e conquistas e até pelos malfeitos – o mundo adora descobrir os malfeitores, quem são, onde estão...
E há aquelas anônimas que se dedicam “apenas” à vida de outrem. Entregam muitas horas de seus dias aos pais, filhos, parentes ou amigos com necessidades especiais, voluntariamente a serviço da manutenção da existência. Ou a seus pacientes, como fazem médicos, enfermeiros ou motoristas de ambulâncias, com sua destreza e desvelo. Essas passarão desapercebidas pelo grande público. (Pintura de Reynaldo Fonseca)

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Vivendo em Alderley Edge - Where there’s tea there’s hope - Magda Hammer

Parte 1 - Julho de 2010

A parte “ física” da mudança já passou. As caixas já estão guardadas no porão, até prontas pra outra. Agora começo agora a analisar o lugar, eu e os meu botões.
Dizem que a primeira impressão é a que fica? Não sei, mas vou contar algumas cenas.
Chegamos aqui e deu tudo errado. A mudança atrasou. Prometeram pra gente um porão que não existia. Alarme de incêndio no primeiro dia de Inglaterra, de roubo no segundo, vazamento no terceiro e aí por diante.
Se não fosse a solidariedade de um vizinho muito bondoso que nos emprestou o porão dele, não sei o que seria. Vizinho solidário e ingênuo pois não sabe do escritório que eu montei nesse quarto extra. Parece quartinho clandestino da CIA da Segunda Guerra Mundial. Não saio mais!
O alarme de incêndio no hotel, em plena madrugada, até que foi divertido. Foi então que comecei a perceber como os ingleses adoram sirenes. E como são abertos, pois mal cheguei e já estavam só de roupas íntimas na minha frente. Moral da estória: nunca durma num hotel sem pijama adequado.

Ordinário

Avisto o ônibus que ameça ir embora sem mim. Corro, aceno, consigo alcançá-lo e rezo para não perder o próximo. Quinze minutos, desço e, sorte, o outro ônibus já está no ponto. Mais uma vez a mesma encenação, corro e aceno o derradeiro “me-espere-pelo-amor-de-deus”. Passo na roleta e mal acredito no oásis, cadeiras vazias! Assento o corpo, acomodo os pensamentos, coloco os fones de ouvido, fecho os olhos e agradeço, agora só mais quarenta minutos. Dois pontos e uma senhora carregada de um universo particular senta ao meu lado e invade os limites que deveriam separar estranhos. A mulher e toda sua existência me espremem contra a janela. Respiro fundo e, vingativa, torço para que haja uma curva para a esquerda que leve a abençoada e suas sacolas, casacos e falta de noção para o meio do ônibus. Ela cochila e se esparrama mais um bocadinho. De repente a tal curva para a esquerda, tão inesperada quanto o meu ato reflexo de salvar a mulher e toda sua parafernália. Ela se apruma, sorri e agradece. Com a irritação diluída no sorriso, recoloco meus fones de ouvidos torcendo por uma grande reta até nosso destino. Quem sabe ainda sobreviva nesta alma selvagem algum vestígio de humano, melhor, de divino herdado da minha amada avó. Um naco de boa vontade, humor e paciência. Amém! A bênção, vó!

Dona Maria - Rio de Janeiro, Brasil

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Retorno

“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Temperatura de 26º, sensação térmica de 50º. Senhas. Filas. Espiral do inferno. Próximo. Marés de Araribóia: subindo insatisfações, descendo xingamentos. Próximo. A porta trava. Próximo. A criança chora. Próximo. A velhinha desmaia. Próximo. Uma legião escada abaixo, escada acima. Próximo. Diante da platéia o revide contido entre dentes e contrações musculares. Próximo. Na coxia todas as falas de um dia de furia. Próximo. Um gole de café para firmar o pulso. Próximo. Gritos, exageros, mais alguém desmaia. Próximo. Conciliação das transitórias: 16 garrafas de café, 01 garrafa de chá, 6 galões de água, 02 auditores, 01 policial armado, algumas carteiras de cigarro, um pouco de antiácido, algum analgésico, uma tampa de privada quebrada, dois botões danificados em um dos elevadores, uma torneira de bebedouro arrancada, restos de bom humor. Saldo zerado. O bom filho à casa torna. Próximo.
Dona Maria - Rio de Janeiro - Brasil

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Por que Deus deixou de existir aqui na Itália? - Luci Macedo

Por que Deus deixou de existir aqui na Itália?
Eu não sei, mas o fato é que ontem aconteceu algo surpreendente e curioso, coisa do outro mundo.
Eu estava sozinha em casa, dia difícil, cinza, frio e sem perspectiva de uma mísera esperança de um dia seguinte feliz ou com alguns minutos de sol. O inverno castiga na carne a nossa luta pelo bom humor, e no fundo, eu pedia um sinal.
Liguei o computador e conectei o skype, de repente um aviso de entrada me deixou sem fôlego. Explico; para quem não conhece o skype, quando alguém entra on line aparece um quadradinho de aviso, e esse aviso que apareceu inesperadamente era do Mino, um tio do meu ex-marido e talvez o amigo mais especial que já tive nessa vida, só que o que me surpreendia era o fato dele ter morrido há mais de 1 ano...
Eu poderia tirá-lo dos meus contatos, mas gostava de ver seu nome lá, então resolvi deixá-lo em nome dos longos papos que tivemos tempos atrás. Logo começei a chorar e tentei contato:
- "Oi" , eu escrevi, "Mino é você?"
- "Oi! Mino eu to aqui."
- "Sinto demais a sua falta..."

domingo, 21 de março de 2010

Eu e o Vampiro - Margarita Wasserman

Com seu doce sorriso e melífluo olhar, ele me mantém prisioneira. Ele sabe ser mau e generoso. Terei que usar um colar de dentes de alho para me proteger de sua influência e seu carisma? E eu, por acaso, quero perder as chances de aprender com a sua experiência de milênios? (Pois afinal ele é um Vampiro!) Não só sua experiência como competência, boa vontade, paciência e amizade.
Às vezes ele desaparece. Provavelmente vai “dar um passeio” em outras dimensões. Foge das mesmices daqui! Vai à procura de anjos e demônios, desnudar-lhes as almas, e depois, para horror de algumas pessoas, vem a púbico exibir o que descobriu!
Margarita Wasserman - Curitiba, Brasil

quinta-feira, 4 de março de 2010

Crônica da Loucura - Luis Fernando Veríssimo

O melhor da Terapia é ficar observando os meus colegas loucos. Existem dois tipos de loucos. O louco propriamente dito e o que cuida do louco: o analista, o terapeuta, o psicólogo e o psiquiatra. Sim, somente um louco pode se dispor a ouvir a loucura de seis ou sete outros loucos todos os dias, meses, anos. Se não era louco, ficou.
Durante quarenta anos, passei longe deles. Pronto, acabei diante de um louco, contando as minhas loucuras acumuladas. Confesso, como louco confesso, que estou adorando estar louco semanal.
O melhor da terapia é chegar antes, alguns minutos e ficar observando os meus colegas loucos na sala de espera. Onde faço a minha terapia é uma casa grande com oito loucos analistas. Portanto, a sala de espera sempre tem três ou quatro ali, ansiosos, pensando na loucura que vão dizer dali a pouco.

Ninguém olha para ninguém. O silêncio é uma loucura. E eu, como escritor, adoro observar pessoas, imaginar os nomes, a profissão, quantos filhos têm, se são rotarianos ou leoninos, corintianos ou palmeirenses.
Acho que todo escritor gosta desse brinquedo, no mínimo, criativo. E a sala de espera de um "consultório médico", como diz a atendente absolutamente normal (apenas uma pessoa normal lê tanto Paulo Coelho como ela), é um prato cheio para um louco escritor como eu. Senão, vejamos:
Na última quarta-feira, estávamos:
1. Eu
2. Um crioulinho muito bem vestido,
3. Um senhor de uns cinqüenta anos e
4. Uma velha gorda. Comecei, é claro, imediatamente a imaginar qual seria o problema de cada um deles. Não foi difícil, porque eu já partia do principio que todos eram loucos, como eu. Senão, não estariam ali, tão cabisbaixos e ensimesmados.
(2) O pretinho, por exemplo. Claro que a cor, num país racista como o nosso, deve ter contribuído muito para levá-lo até aquela poltrona de vime. Deve gostar de uma branca, e os pais dela não aprovam o namoro e não conseguiu entrar como sócio do "Harmonia do Samba"? Notei que o tênis estava um pouco velho. Problema de ascensão social, com certeza. O olhar dele era triste, cansado. Comecei a ficar com pena dele. Depois notei que ele trazia uma mala. Podia ser o corpo da namorada esquartejada lá dentro. Talvez apenas a cabeça. Devia ser um assassino, ou suicida, no mínimo. Podia ter também uma arma lá dentro. Podia ser perigoso. Afastei-me um pouco dele no sofá. Ele dava olhadas furtivas para dentro da mala assassina.
(3)E o senhor de terno preto, gravata, meias e sapatos também pretos? Como ele estava sofrendo, coitado. Ele disfarçava, mas notei que tinha um pequeno tique no olho esquerdo. Corno, na certa. E manso. Corno manso sempre tem tiques. Já notaram? Observo as mãos. Roía as unhas. Insegurança total, medo de viver. Filho drogado? Bem provável. Como era infeliz esse meu personagem. Uma hora tirou o lenço e eu já estava esperando as lágrimas quando ele assoou o nariz violentamente, interrompendo o Paulo Coelho da outra. Faltava um botão na camisa. Claro, abandonado pela esposa. Devia morar num flat, pagar caro, devia ter dívidas astronômicas. Homossexual? Acho que não. Ninguém beijaria um homem com um bigode daqueles. Tingido.
(4) Mas a melhor, a mais doida, era a louca gorda e baixinha. Que bunda imensa. Como sofria, meu Deus. Bastava olhar no rosto dela. Não devia fazer amor há mais de trinta anos. Será que se masturbaria? Será que era esse o problema dela? Uma velha masturbadora? Não! Tirou um terço da bolsa e começou a rezar. Meu Deus, o caso é mais grave do que eu pensava. Estava no quinto cigarro em dez minutos. Tensa. Coitada. O que deve ser dos filhos dela? Acho que os filhos não comem a macarronada dela há dezenas e dezenas de domingos. Tinha cara também de quem mentia para o analista. Minha mãe rezaria uma Salve-Rainha por ela, se a conhecesse.
Acabou o meu tempo. Tenho que ir conversar com o meu psicanalista.
Conto para ele a minha "viagem" na sala de espera.
Ele ri... Ri muito, o meu psicanalista, e diz:
- O Ditinho é o nosso office-boy.
- O de terno preto é representante de um laboratório multinacional de remédios lá no Ipiranga e passa aqui uma vez por mês com as novidades.
- E a gordinha é a Dona Dirce, a minha mãe.
- "E você, não vai ter alta tão cedo..."

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Jardim de infância - Margarita Wasserman

Levada pela mãe, aquela criança de cinco anos teve o seu primeiro dia de escola.
Muito quieta, com os olhos enormes arregalados, ela olhava para tudo, encantada. E aquelas pecinhas de madeira, o que seriam? Ela nunca havia visto nada igual.
Como ela não tocasse em nada, a professora sentou-se ao seu lado e montou um cavalinho, ou era um elefante?
A criança só olhava, não tocava em nada. Será que tinha medo que o encantamento sumisse?
Ficou o tempo todo extasiada. E as histórias, então, que a professora contava?
Havia uma criança que chorava muito. Queria a mamãe. Ficou sentada ao lado da professora. Como podia ela chorar? Aquilo tudo era tão lindo...

A mãe chegou e ela correu feliz ao seu encontro. Queria contar... Mas o que seria que a professora falava com a mãe?
Não voltou mais ao jardim de infância, porque sua mãe recusou-se a levá-la, acreditando na conversa da professora, de que sua menina havia chorado.
Muito solitária, procurava na vizinhança um amiguinho mais novo que ela mesma e passavam horas passeando... Um dia, descobriu perto de onde morava, na rua Colombo, (hoje Clotario Portugal) uma escola e matriculou-se nela. Levou junto o seu amiguinho de três anos. Diariamente, os dois apareciam para a "aula".
Aquela professora sim: tinha muito amor para dar. O fim do ano chegou e entre risos e lágrimas a mãe aplaudiu quando viu a sua menina no meio dos outros alunos, em cima do palco, nos festejos do fim do ano escolar cantando em polaco!
Passaram-se quarenta anos, quando passando defronte ao prédio do Instituto de Educação (antiga Escola Normal) num relance, ela reviu toda aquela cena do jardim de infância. Só então entendeu: A professorinha talvez inexperiente ou má psicóloga, ao ver aquela criança tão quieta, deve tê-la achado "diferente". Foi mais fácil dizer "ela chorou muito" e desvencilhar-se do "problema".
Mamãe: eu juro. Eu não chorei.
Margarita Wasserman - Curitiba, Brasil

sábado, 19 de dezembro de 2009

Briga de vizinhos - Margarita Wasserman


Se não gostas do limpo. Não sujes.
A ti é conferido o direito de gostar do limpo ou do sujo.
Mas, se preferes o sujo, por favor, respeita quem gosta do limpo.
Não permitas que a raiva ilumine como um corisco a escuridão, tal como o fogofátuo, que apenas assusta crianças e ignorantes. Mas também é conferido aos outros, que gostam do limpo, o direito não apenas de trabalhar, mas também de exigir.
Se a ti agrada a sujeira, viva nela (porquinho)...
É bem verdade que do lodo também nascem lírios.
Mas e o "perfume"?...
Tu rescendes a rosas que têm o mel que as abelhas tanto gostam.
Mas, também, não esqueças que as roseiras necessitam de estrume para vicejar.
Sou uma Fada.. Da sujeira crio a forma perfeita e o perfume suave.
Mas também atrais as abelhas que tanto perturbam...
As abelhas perturbam e produzem. E tu perturbas e nada produzes...
Eu sou a rosa que enfeita e perfuma e tu és a cigarra que canta e encanta.
Juntos poderemos encantar e trabalhar. De acordo?

Que dia é hoje? - Gabriela Sandes

... e perguntou à atendente:
- Por favor, que dia é hoje?
- 1º de dezembro.
Deu-se, então, o curto-circuito: a caneta ficou imóvel, entre os dedos paralisados, na mão frouxa e travada, do braço rijo dependurado no corpo encurvado sobre o balcão.
A atendente aguardava impaciente pelo bendito cheque. Que demora era aquela, com a fila dando volta no caixa?
- A senhora quer que eu preencha na máquina registradora?
Ela entregou o pedaço de papel sem dizer palavra.
- Mas já começou à caneta, agora tem que terminar; pode ficar aqui ao lado, por favor; próximo! – tentando sorrir para a outra cliente - bom dia, dinheiro ou cartão? – que ninguém mais inventasse pagar em cheque! - crédito ou débito?
Beatriz achou que desmaiaria ali mesmo, no meio da loja. Estaria tendo um derrame?
Sem poder protestar, colocou a data no cheque, obediente à informação da moça. Quase não se lembrava mais quem era, mas conseguiu também assinar. Saiu da longe em câmera lenta, zanzando pelos corredores até notar o Papai Noel sentado em um trenó reluzente, puxado por renas enérgicas que alçavam um voo rasante e estático desde o centro do shopping. Onde esteve durante o ano inteiro?
Havia pouco tempo, muito pouco, os parentes do marido chegaram para passar o Natal. Ela providenciou presente para todos os sobrinhos e comprou tanta comida, que deu metade aos porteiros e à empregada. Foi buscá-los no aeroporto e devolvê-los quando já retornavam a Porto Alegre, depois do reveillon naquele clube cafona que o cunhado escolheu pelo terceiro ano seguido... No carnaval, o que mesmo haviam feito? Queria ir à praia, mas a filha ia fazer vestibular, o marido achou melhor não viajarem, fazendo-a permanecer imersa no sofá, zapeando sonolenta pelos desfiles das escolas de samba, trios elétricos e blocos de frevo da televisão.

As aulas recomeçaram em março, cada nova turma que chegava era pior que a anterior, e lhe deram oito naquele semestre; o problema na voz voltou, a filha começou a faculdade, graças a Deus, mas o que ia ser dela estudando Publicidade?!? O marido não quis dar palpite, como sempre, no que ele opinava? Quando foi mesmo que torceu o pé? Não, isso já foi em outubro, no dia do aniversário da sogra... Mas quando o semestre acabou, gente? Final de junho, como esquecer?, passou duas noites em claro corrigindo as provas, teve uma crise inédita de labirintite; em julho o filho voltou do intercâmbio se achando experiente e muito maduro, não aceitava mais ordens, onde foi parar o seu pequeno? Aquele congresso foi em... Maio? Há tanto tempo assim? A irmã do meio teve um aborto aos 42 anos, também pudera, era o que faltava, engravidar àquela altura, lá foi ela passar uma semana em Belo Horizonte para ajudar na recuperação, isso ainda era setembro? Foi antes do apagão? Depois da formatura do sobrinho? Na mesma época da obra na cozinha? Começou o tratamento de varizes em agosto, disso tinha certeza absoluta... Mas não era primavera? O consultório ficava de frente para o Aterro cheio de árvores floridas; então não foi em agosto... Mas o tempo está tão maluco... Foi em agosto, será?
Outro dia Verinha fez 47 e nem se lembrou que a amiga era escorpiana, senão teria percebido a chegada de novembro e não estaria tão sobressaltada... E o seu aniversário, onde havia passado? Em Ilhéus? Não, isso foi na comemoração dos 45; esse ano caiu justamente em um sábado e foi com o marido ao show de... Mas isso foi praticamente ontem, meu Deus...
Enfiou a chave no carro ainda em transe retrospectivo, quando tentou lembrar... Estava ali para o quê mesmo? E para aonde ia? Passara para comprar uma... E a sacola com as compras?!? De certo, descansava, inútil e esquecida, em algum canto da tal loja, do tal cheque, da tal atendente que a jogara no abismo do fim de mais um ano...
Que inveja do tempo inanimado das coisas, suspirou trancando de novo o carro e caminhando resignada de volta ao shopping.

Gabriela Sandes