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domingo, 1 de junho de 2008

Rock in Rio de 1985

Tá, tá, eu sei que estou nostálgica demais. Mas o que posso fazer se a cada dia eu descubro no youtube uma velharia que me agrada? Eu, balzaquiana que sou, deparei-me numa dessas noites de insônia com o Rock in Rio de 1985.

Muitas lembranças me vieram à memória. Eu só tinha 13 anos. Quase fugi de casa para ir assistir a esse show. Explicando melhor, não era só a rebeldia de adolescente aborrecente que me movia. Nessa idade, eu já tinha uma certa consciência política. Desde os meus dez anos, queria ser presidente do Brasil, hahaha. Imaginem só, as outras meninas querendo ser médicas, professoras, bailarinas e eu já com idéias revolucionárias.

Bom, voltando àquele data, para quem não se lembra ou não sabe, aquele dia não era só o dia do início daquele concerto. Tancredo tinha sido eleito presidente da República do Brasil. O primeiro após 21 anos de ditadura militar. Não foram eleições diretas como queríamos, mas foram eleições! E naquele dia todos estavam embuídos daquela esperança. Era aquele dia! Nós vencemos e tínhamos que comemorar.
Acabei não indo ao concerto nem me tornando a grande chefe da nação. Então só me resta contar uma pequena parte dessa história:
Rio de janeiro, 15 de janeiro de 1985, ao meio-dia em ponto, jovens vinham correndo, dando pulos e cambalhotas, invadindo a Cidade do Rock até chegar na grade do palco. Era o primeiro Rock in Rio começando, o projeto mais ambicioso de um evento internacional a ser realizado no Brasil. O maior evento mundial de rock na época, depois do Woodstock.

Até então contava-se nos dedos as bandas de rock internacionais que haviam tocado no Brasil. Roberto Medina, que organizou o evento, sabia que o momento era propício para faturar com esse tipo de música. Os jovens brasileiros estavam ouvindo rock internacional e nacional. Este último havia nascido há pouco e era muito bom.
Foram gastos 11 milhões de doláres no evento, que contou com o apoio do governo brasileiro a fim de melhorar a imagem do Brasil no exterior. Como se algo ainda pudesse ser consertado...
Mas o governo militar não apitou em nada na cidade do Rock. Era tempo de mudanças no Brasil, todos sabiam disso. Assim, o Rock in Rio de 1985 tornou-se um parque de diversão onde os artistas diziam o que pensavam. Afinal o rock é isso aí, é contestação e compromisso com a liberdade. Tudo isso no meio de muita chuva. Era lama, bandeiras verdes e amarelas e diversão para todos os lados.

E um rock irreverente, inteligente e satírico. Se o Brasil parece muitas vezes uma piada sem graça, por que não inverter isso e criticar essas questões através do humor? Foi isso que a versão tupiniquim desse estilo musical fez. Tudo começou com o movimento „udigrude“ dos anos 70 (o new wave nacional) e do Ásdrúbal Trouxe o Trombone, que desde 1974 mixou música e ironia nos palcos. Aí veio a banda Blitz que, com seu humor escraxado, foi responsável pela explosão do rock no Brasil.

Ao longo dos anos 80 as letras foram tornando-se mais politizadas e o rock se estabeleceu de vez entre os nossos jovens, tornando-se o fato cultural mais significativo de tal década no Brasil. Muitos roqueiros vinham de Brasília – existe cidade melhor para se formar rebeldes com causa do que Brasília? Lugar onde o poder está tão próximo e tão longe...
Renato Russo e seu Legião Urbana vinham de lá. Junto a Cazuza, líder da banda carioca Barão Vermelho, tornaram-se uns dos maiores ídolos daquela geração. Geração Coca-Cola, como o próprio Renato dizia.
Ambos injetaram poesia no rock, percorreram a estrada dos excessos em busca da sabedoria e fizeram o Brasil mostrar a sua cara com questões simples e diretas: “Que país é este?”. E falando verdades sem medo ou pudor: „me chamam de ladrão, de bicha, maconheiro, transformam o país inteiro num puteiro, pois assim se ganha mais dinheiro“. Os dois morreram no auge da fama vitimados pela Aids, o mal do fim do século sobre o qual tanto cantaram.

Cresci ouvindo esses caras, acreditando no que eles diziam. Foram eles que formaram minha opinião. Por isso eu queria ter estado lá naquele dia.
E foi um desses dois grandes poetas que tocou no primeiro dia de Rock in Rio. Cazuza e Barão vermelho, subiram pela primeira vez a um palco enorme, o que indicava que o rock nacional tinha conquistado seu espaço. Tinham uma bandeirinha na bateria, Frejat estava de verde amarelo e Cazuza cantou a vitória da democracia mostrando a nova cara do Brasil. Eram os jovens que começavam a acreditar no país. Era o rock brasileiro mostrando seu valor no meio de tantas bandas internacionais. Foi um marco, tanto na história do Brasil como para o rock brasileiro.
Cazuza encerra o show com a música Pro dia nascer feliz e com as palavras: „Que o dia nasça lindo para todo mundo amanhã. Por um Brasil novo, uma rapaziada esperta!“

E assim se fizeram os anos 80, a nossa década equivalente aos anos 60 lá de fora. O mais importante nela foi a descoberta da liberdade de expressão por toda uma geração que nunca tinha votado ou tido nenhum movimento político.
A gente começava a achar que o Brasil era o país do futuro, um futuro que ainda não aconteceu. Um dia a gente chega lá. Mas isso já é uma outra história.

Magda Hammer, Zurique - Suíça


5 comentários:

Anônimo disse...

Oiiiii adorei sua nostalgia pois me fez viajar no ano de 1985 , saudades de uma época nao vivida bjj....Fábio

Stephano disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Miba! Adorei. Mandou bem em sua insônia nostálgica! Beijo. Saudade PIPA.

Anônimo disse...

Olá Magda

O futuro está aí!
Veja quanta coisa mudou!!!

Continue dando sua contribuição.
Beijos
Dinorá

Anônimo disse...

querida, "nadando contra a corrente só pra exercitar" ... taí no que deu a gente curtir as letras deste pessoal inspirado ... continuamos neste "exercício saudável", desta vez do outro lado do planeta ... que vc tenha mais noites de insônia, amiga ... ;-)
bj Miriam